As Águias da Morte de Metal.

Eu assistia a entrevista de um rapaz que estava presente no Bataclan.. ele mostrava a camiseta com manchas de sangue.. O rapaz dizia que jogaria fora a camiseta. Não seria um troféu cool de um show de rock onde algo “bárbaro” acontecera. Ele estava confuso, um pouco em choque.. “eu ví o que uma bala pode fazer em um corpo”. Ele conta como foi salvo por um homem de camisa vermelha que o arrastou para fora do local do massacre. A câmera da entrevista enquadra o braço do rapaz aonde ele mandou tatuar duas mãos atadas por correntes, amaneira dos desenhos dos anos 30 e a frase: Partners in Crime.

O rapaz não pode reagir a violência no Bataclan.. Ele e uma plateia aonde centenas de tatuagens flertavam com o crime e camisetas com caveiras homenageavam a morte, foram subjugados, perdendo a harmonia que cultivaram esmeradamente com a destruição. A violência é um traço da vanguarda surrealista, dadaísta, punk. Parte da fina flor da cultura ocidental celebrava a vida da maneira mais avançada possível no Bataclan e incluía, esteticamente, a morte e o crime nas imagens. Um show de rock essa noite. Um filme de gangster amanhã a tarde. A resposta da cultura as platitudes esperançosas do século 20, aos apelos ecológicos, as consciências racionalizadas, as espiritualidades duvidosas foi a morte, controlada pela estética. “Parceiros no crime”.. O dono da tatuagem não é criminoso: o crime alí é a resposta sensual a uma moral ilusória. A resposta lúcida a moral alienada da vida. A plateia no Bataclan era lúcida. A consciência procura a lucidez mesmo quando escolhe idéias sem nenhuma experiência com a pratica dessas idéias. O inocente se tatua com o crime. Os vivos brandem a caveira. Ora.. na prática os criminosos se pretendem inocentes e os mortos querem voltar ao mundo dos vivos.

O rapaz diz que vai se livrar da camiseta.. o sangue é de um desconhecido. Ele faz questão de dizer que assistiu o que as balas fazem a um corpo. Ele quer mandar uma mensagem: agora sei o que são balas, tiros e mortes. Viu uma expressão mecânica no rosto de um atirador. Agora sabe como alguém morre a tiros. Ele foi ao Bataclan para assistir Eagles of Death Metal, banda que faz paródia da violência sensual no Rock. O rapaz vai ter um problema agora: sobreviver em uma cultura que não vai lhe parecer tão lúcida.  O que ele vai fazer sábado a tarde, no lugar de assistir um filme de gangsters?  Aonde a plateia que escapou viva do Bataclan vai encontrar lucidez? No Bataclan, sexta a noite, começou mais uma transformaçao radical na nossa sensibilidade.

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7 Comentários to “As Águias da Morte de Metal.”

  1. A barbárie é uma das faces do mundo civilizado. Isso não explica nada, isso aprofunda o abismo, afia as arestas cortantes. É preciso chegar ao fundo do poço? Existe o fundo ou apenas uma pá no cárcere do poço?
    Que tipo de resposta é possível quando se abole a razão? Ou quando uma razão meticulosamente adestrada trama o crime? Lembro-me do filme Cães de aluguel. Lição filosófica. Preciso rever porque detalhes escapam à memória. Violência absurda sem fundamento, não justificada em sua origem. Assim é o golpe terrorista nos instantes que sucedem aos disparos, às explosões. Inesperado, inexplicável no instante de seu devir mortal. Expõe a vulnerabilidade do sobrevivente e coloca o mundo no lugar de refém espectador da cena inexplicável, a cena que desmonta o esquema sensório motor da plateia atônita e silenciosa.
    Com o tempo buscamos e encontramos explicação, cada um a sua. Mas desconhecemos que a grande chance que nos é dada esta no instante em que não temos explicações, em que a violência nos desarma, nos deixa nus e vulneráveis, à mercê das mais profundas afecções que a realidade por nos oferecer. Dai pode surgir uma reação, ato transformador. E não da razão, do entendimento, do ressentimento que aos poucos e perversamente recobre a cena do crime com afetos passivos.
    beijos Ana

  2. Acho que o autor não entendeu o significado dos elementos que comenta. A expressão ‘partner in crime’ é usada no mundo da tatuagem como símbolo de amizade um fraternidade. É uma expressão, maneirismo da língua, não é diretamente relacionada a criminosos. A banda Eagles of Death Metal também canta sobre temas que celebram a vida, também. Acho que morte e destruição passaram longe de serem celebrados nesse dia…

    • O autor entendeu sim.. inclusive ele gosta muitp da musica da banda e sabe perfeitamente do que consiste o seu repertório. O autor sabe como as tatuagens são hábito nas cadeias, entre os proscritos e os marinheiros, nômades sem compromisso com as cidades aonde aportam. O autor sabe o significado das carpas tatuadas sobre as costas dos Yakuza. Se oriente rapaz..tome um café com leite. rsrsr.

  3. ACHEI VOCÊ!! não volta mais pro facebook?

  4. Que bom te encontrar aqui… Sinto falta de sua opinião afiada!!!

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