Fotografia e Pintura

Em determinado período do seu trabalho, as pinturas do artista alemão Gerhard Richter parecem fotografias. Ele leva para a tela a profundidade de foco, a gradação tonal em preto e branco e até o “tremido” da fotografia quando a velocidade lenta e a câmera na mão produzem uma imprecisão.

Warhol e muitos artistas do pensamento pop inclusive no Brasil se interessaram pela fotografia como uma “nova paisagem”. Hoje, ainda mais, imagem se tornou prevalente sobre a paisagem física: a imagem determina nossa idéia de paisagem, cidade e individuo. A relação do olhar com o mundo é mediada por imagens. Richter expõe a ambiguidade entre precisão e imprecisão da fotografia na captaçao do visível. A pintura, “conclusão” do olhar, pensa o visivel e faz a síntese do que se olha e precisa ser enxergado.

Pintura começa em pensamento que através do gesto acumula massa pictórica. A fotografia é uma tradução automática do visível, feita na camera escura, para o bidimensional. É automática. Aquilo que está diante do olhar se transforma em imagem quando o aparelho fotográfico é acionado. Esse aparelho é basicamente a camera escura usada no atelier renascentista para produzir perspectiva na pintura. Quando o filme sensível é inventado, a imagem é liberta do atelier para se tornar autônoma; um duplo do que se vê, capaz de sobreviver a visão, ao momento em que foi visto. A fotografia nasce ligada ao acontecimento, como um irmão siamês de cada momento. Com a fotografia, o momento passa a ter ângulos de onde é visto. Multiplos ângulos. O momento se torna um polvo de muitos braços generosos. Em cada ângulo, um fotografo. Em cada fotografia, uma visita a esse momento, uma recordação, uma descrição. A observação fotográfica se torna a febre do século 20 e substitui todas as tentativas de formulação e descrição da realidade: a fotografia torna tudo inteligível, enquadrando e reduzindo pessoas, multidões, fenômenos, conflitos etc.. dentro da imagem.

Está na hora de lembrar a historia da fotografia. No fim do século 19, Paul Strand escreve um manifesto modernista na revista Camera, editada em Nova Iorque por Stieglitz. Strand propõe aos fotógrafos que procurem uma estética própria da fotografia. Ele procura a nitidez, a geometria e principalmente o detalhe em macro. Algo especifico da fotografia que esteja além do que é visto e que seja encontrado através da câmera, antes de ser imaginado. Segundo o modernista Strand, a imagem deve ser produção da câmera fotografica, sua propriedade. Não mais a tradução da pintura romântica refazendo mitos e cenas literárias no estúdio ou capturando auras e fantasmagorias em reuniões espíritas. O manifesto de Strand leva o fotografo/ artista para as perspectivas produzidas pela indústria. Leva o fotografo para descobrir o olhar da máquina. A imagem paira sobre o encontro entre o inconsciente e a industrialização e cabe ao fotografo revelá-la. A interseçao inteligível, reflexiva, com as maquinas.

Havia uma nova paisagem a ser formulada. A fotografia acelerou o modernismo. Vieram o formalismo de Weston, a documentação de Walker Evans. A aceleração da arte com Man Ray e Duchamp. Aparece o futurismo, todo sobre a aceleração. Lartigue fotografa a aceleração de um carro. Man Ray produz imagens anti riomanticas de nú/ objeto/ máquina. Duchamp faz retratos disfarçado de bandido e de mulher. Usa as maquinas de retrato dos parques de diversão para fazer auto retratos aonde se torna mais indescritível, menos conhecido, mais enigmático. A fotografia torna a identidade e a essência de cada um em clichê produzido em série. Walker Evans concretiza a melancolia e o desespero literário do século 20 nas imagens que faz dos EUA na depressão econômica. A fotografia critica e social da depressão americana, circulando nas revistas, dissipa a idéia burguesa de descrever o artista como alguém desligado da realidade. O fotografo mostra as coisas como elas são: duras, nítidas, sólidas, impessoais, aceleradas, em movimento.

Apesar da inteligência na proposta modernista de Strand, o fotografo não controla a maquina: é a fotografia que vai dominar a natureza, o ser. Ela vai se tornar o mundo. O fotografo se desloca da posiçao de observador do momento para se tornar o criador da paisagem, do momento, do mundo. A fotografia se torna anterior a paisagem na civilização moderna. A fotografia se tornou rápida e fácil, se reproduzindo com voracidade, colada em toda existência até o ponto que começa a substitui-la. E nesse momento de triunfo da imagem, a fotografia aparece como personagem na pintura pop. Os artistas, e só eles, perceberam que a imagem fotográfica havia se libertado do olhar para se apossar do lugar dos vivos. Warhol pinta a Marilyn.. mas ele pinta a imagem da Marilyn, sobre a imagem impressa da Marilyn. Sua tela, sua paisagem, sua coisa, sua matéria.

A estratégia para deslocar a fotografia do lugar de mediaçao entre pensamento e acontecimento começa alí.   A estratégia projeta o fotografo para um outro angulo e lugar. Um lugar subalterno a pintura. A imagem não será mais a irmã siamesa do que existe ou a expressao definitiva do que acontece entre espaço e tempo. A pintura volta a mediar a relação entre olhar, paisagem e pensamento. E a fotografia sai dos departamentos e coleções específicas para ocupar as paredes das instituiçoes de arte em pé de igualdade com todas as obras.

A fotografia deve ser comandada pelos artistas. O segundo passo dos artistas na fotografia foi aplicar a ideia minimalista. A exposição New Topographics, nos anos 70, cria um novo gênero de fotógrafo que abandona a idéia de “momento decisivo”, de observador da aceleração cotidiana, para mditar sobre a paisagem e suas possíveis proximidades com dinâmicas da arte contemporânea. O casal alemão Becher, professores da Academia de Arte de Dusseldorff, aparece nos Estados Unidos pela primeira vez com suas séries disciplinadas e obsessivas de fotografias que catalogam prédios industrias segundo sua especificação produtiva. Uma tipologia de prédios industriais. Lewis Baltz fotografa periferias urbanas em regiões desérticas aonde a paisagem evidencia um mundo feito de forma sem sentido. É uma paisagem inóspita, perigosa ande a natureza humana nõa é mais grandiosa e sim um clichê diminuído. Robert Adams, Joe Deal, Frank Gohlke, Nicholas Nixon, John Schott, Henry Wessell e Stephen Shore completam a lista de fotógrafos dessa exposição que criava um novo gênero, uma cena fotográfica distante do mundo dacomunicação e próximo da arte minimalista.. na fronteira histórica entre arte moderna e contemporânea.. Há um reencontro na paisagem, na Topografia, entre a fotografia e a pesquisa das artes plasticas.

A pesquisada paisagem continua entre os alunos dos Becher na academia de Dusseldoff; Andreas Gurski, os dois Thomas, Ruff e Struth e Candida Hoeffer criam nova torção sobre a imagem e a paisagem; manipulam a paisagem para aproximá-la da idealização. Separam a imagem e do acontecido, do mundo em movimento. A imagem deve ser apenas imagem e um espelho para ideias. Gurski distancia a câmera e enquadra a multidão, manipulando a imagem e criando harmonias utópicas. Sempre com o olhar distante, enquadra a serialidade do “tudo a 1 dolar” nos supermercados. A realidade parece cada vez mais um projeto idealista e absurdo na fotografia próxima da arte.

O terceiro passo dos artistas na fotografia será a encenação. Starlets, garotas que fogem de casa, Gangs de rua. …toda a paisagem contemporânea que era capturada espontaneamente será encenada pelo fotógrafo. A frase de Barthes “ a fotografia é extensão do teatro.. e não da pintura” do livro Camera Clara, vai ressoar. A ausência da tinta, da massa pictórica, do gesto do pintor na tela, vai ficar clara. A relaçao da fotografia com o pictórico é de conflito e impossibilidade. Uma transgressão da natureza de cada meio esta sempre implícita nas aproximações. A transgressão é a pressão para produzir reflexão. Separando imagem e existência ao aplicar doses de artificialidade na cena. A fotografia volta ao atelier do século 19 quando imagens eram compostas e encenadas. Cindy Sherman, Mapplethorpe, Mohammed Borouissa, Rineke Djikstra e Jeff Wall. Nan Goldin mostra a vida sentimental com a sensibilidade camp aonde a dor de viver é melodramática. Tudo exagerado. A pintura disfarçada de fotografia em Richter e a fotografia como pintura refletida na imagem, em Jeff Wall. O melodrama de Nan Goldin. As cenas de Cindy Sherman e Borouissa. Os Gainsborough na praia de Dikstra. Há um aspecto de máscara. A farsa é constante no repertório da arte desde sua aparição no Ocidente. É uma idéia moderna e a arte aparece se dirigindo ao moderno. A fotografia/ extensão do pictórico é assinalada como um sintoma de pós modernismo. Seria o caso de compreendermos que estamos diante de um desdobramento do moderno. … A fotografia nasce dentro da câmera escura, um instrumento de pintores. Se desgarra para inventar a sociedade deimagem.. Os pintores vão atrás e a trazem de volta para a tela, para o campo da arte, territorio da liberdade individual, da reflexão, da igualdade entre as diferenças, do espirito moderno.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: