elogio ao refugiado

 

Repare nos refugiados.. Alguns deles estão dormindo sob uma marquise em Paris. Iluminaram a marquise para filmá-los com uma luz dura e a câmera filma de cima para baixo o homem se cobrindo para dormir entre pedaços de papelão. Nunxa tinha assistido essa violência sobre o sono. Quando me cubro para dormir, os estranhos estão afastados e estou protegido. Posso amolecer e me deixar invadir pelo inconsciente. Os refugiados são endurecidos. Não sinto pena mas profunda admiraçao por esse endurecimento. São voluntários de sí mesmos como são voluntários os que lutaram na Resistencia Francesa. Na Hungria, fizeram questão de dizer: não somosmendigos! Verdade. Não são frágeis e não são desajustados. São o exemplo mais claro de escolha e determinação em uma época aonde tudo nos é imposto: o celular, o facebook, o ateísmo, a consciência social, o seguro social, o centro de saúde, a escola, as eleições, o direito de expressão, a indignação, a subjetividade, o sexo, os filmes, a discussão, a religião chegam a sua casa, sua porta, seu computador em um e mail não solicitado, um telefonema do fornecedor dos serviços, uma discussao na rede social na pagina de um amigo que te adicionou. Voce clica e aceita. Basta ter a sua senha.

O refugiado não aceita mais. Nem o seu pais, a cidade, a sua casa, seu desemprego e o seu exercito nacional de fanáticos lutando por idéias tortas e imbecis. O refugiado parte em uma odisseia miserável sem Homero algum para narrá-lo. Ele busca a alternativa, sobrepujando perigos de uma grandeza simbólica como nunca mais o homem havia encontrado .. Embarcam em botes carregando o que tem para cruzar o mediterrâneo, clandestinos. Imaginem a força de uma lembrança como essa na mente de uma criança carregada pelso pais. É uma lembrança capaz de fazer ressurgir a poesia, a arte, as grandes narrativas.

O refugiado não aceita o destino. Não aceita sobreviver. Ele escolhe encontrar outra identidade que não seja o sobrevivente. Escolhe a transformaçao que lhe impõe um aniquilamento. Dormir sob marquises e ser o lixo da cidade luxo, sua comida em copos e pratos de plásticos enquanto uma câmera filma seus cobertores de papelão. Ele aceita o aniquilamento. Estóico. Escolhe o seu destino. Ele é forte. Tanto quanto os europeus, os latinos, os americanos do norte, asiáticos, russos, japoneses e australianos. Ele atravessou mar e montanha. Está afiado na caminhada e eu afirmo: são eles os exploradores espaciais, os astronautas. O refugiado é o homem do futuro.

Os refugiados parecem não possuir nada mas carregam algo que que eu e voce, nesse momento, não conseguimos encontrar em nenhum de nossos muitos armários em quartos aonde dormimos protegidos de qualquer estranho: esperança. Eu observo o rosto do rapaz afegão na câmera. Que rosto bonito, jovem, de olhar inteligente. O cabelo bem penteado. Como são bonitos os semitas. Articulado, prova ao repórter por a mais b que alí naquela marquise, ele e os companheiros jamais poderiam planejar um atentado terrorista na cidade. Como é inteligente.

 

 

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6 Comentários to “elogio ao refugiado”

  1. Esse texto é pica! É o texto de um autor capturado por uma imagem que ele não descreve ele fotografa. Fotografar é escrever com outras armas, é produzir outro tipo de atentado, uma tentação.

  2. O ISIS atacou as esperancas dos refugiados na Europa.
    Os refugados que queriam ser aceitos na Europa serão discriminados depois do massacre.O Isis fez questão de deixar um passaporte de refugiado sirio na cena do crime.
    A crueldade com sua propria gente é diabólica.

  3. Correto, diabólicos. E a barbárie perpetrada se perpetua no tempo porque a solidariedade até então demonstrada – mais por uns, menos por outros povos europeus – traz a reboque o medo e a desesperança da civilização ocidental em viver em paz dentro de seus valores. Enfim, os legítimos refugiados trazem consigo, indiretamente, ódio e sangue. Os extremistas insanos devem ser combatidos com inteligência e força, mas sobretudo com um grande exercício de espiritualidade de toda a humanidade contrária ao status quo. Como li recentemente, quem é de rezar, reze, quem não é, olhe, apenas olhe para a humanidade, para si, para o vizinho…e conclui o texto: o ódio não tem pátria, não tem registro civil, não pode ser destruído com bombas…

  4. “A verdade enfática do gesto nas grandes circunstâncias da vida”…. Baudelaire também dedicaria a frase ao semita bonito do texto, à beleza forte da sua escrita, às grandes travessias e ao enigma deste tempo estranho de esperança e mito….

  5. a voz da razão. Esse blog é um oásis de lucidez no no deserto de bom senso que se tornou a internet hoje em dia.

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