Império

 

O Imperador cresceu só. Sua mãe morreu quando ele tinha um ano, seu pai foi para o exílio quando o Imperador tinha apenas sete. O menino estudava. Seus tutores criaram um código de valores e virtudes, um conjunto irretocável de princípios para sua formação. Ele cresceu entre páginas de livros e palavras de professores, sem irmãos ou irmãs, em um país distante do continente onde sua família, os Habsburgos,  Orleans e Braganças, reinava há séculos. O Imperador nasceu e cresceu em um Novo Mundo de matas e rios, de índios e ex colônias que se tornavam Repúblicas. Quantas crianças crescem sendo preparadas para governar os homens? Quantas foram bem sucedidas? Quantas herdaram a tradição de um continente para governar em outro? Quantas foram tão sós? A solidão do Imperador sempre foi imensa. Educado para enxergar os problemas do país, do alto de toda a cultura acumulada no Ocidente e governá-lo com sabedoria e equilíbrio… assumiu o trono aos 14 anos de idade. O império durou o suficiente para o menino envelhecer e nele florescerem tantos homens brilhantes e inteligentes quanto fossem necessários e a liberdade permitisse. E assim deveriam caminhar as nações.

Seu país foi colonizado de maneira diferente dos vizinhos. Foi miscigenado. A única monarquia em um continente de Republicas e o único país mantendo escravos.  Agora estamos diante da velhice do Imperador. Sua filha, a princesa, governa enquanto ele fazia viagens ao encontro da sua verdadeira família: o conhecimento, a matéria impressa nos livros, a arte, a filosofia. São as regências da Princesa. Ela governa, humanista e tolerante as divergências.. como governa o pai. Católica. Isabel. Da Igreja, recebeu a compaixão. Para seu desgosto, ainda se mantinham escravos no Imperio.. A escravidão era absurda. A escravidão é uma ignomínia: não se pode vender gente! O ser humano não é propriedade e a Princesa protege os escravos que fogem das fazendas em um quilombo onde cultiva rosas brancas que se tornam simbolo da Abolição. A abolição que se falava em todo lado; nas ruas, na corte, na camara de deputados e no senado do Imperio.. A família imperial queria a abolição mas a monarquia era constitucional com seu gabinete, câmara, senado onde os senhores de escravos defendiam sua propriedade. Era o fim do século e aquela era a ultima nação que ainda mantinha escravos. Esse atraso nunca vai se pagar. Os tempos eram já de capitalismo a pleno vapor. Na capital do Imperio havia classe media, industrias e trabalhadores assalariados . Até escravos faziam bicos assalariados. Bicos que podiam comprar alforria… os escravos de ganho. A libertação acontecia desde o começo do século por bondade dos senhores ou habilidades dos escravos.

Havia algo peculiar e contraditório no Imperio: mantinha escravidão e pouco discriminava os homens de cor. Os Estados Unidos acabaram com a escravidão mais cedo mas logo construíram um sistema declarado de discriminação racial. Enquanto a corte do Imperio permitiu o acesso e prestigiou homens de cor, filhos e netos de escravos quando manifestavam talento e inteligência! Os melhores escritores, engenheiros, músicos, banqueiros,conselheiros e políticos podiam ser negros e bem sucedidos. Podiam ficar ricos, influentes e respeitados .. em plena escravidão. Brancos e negros casaram entre sí e reconheceram suas crianças. Chiquinha Gonzaga era filha de um General do exército Imperial que casou com sua mãe, ex escrava. O mundo civilizado que havia escrito os livros de formação do Imperador, que colonizara aquele país já havia virado a página da escravidão… mas desenvolvia o preconceito, o racismo enquanto o Imperio ignorava a diferença de cor. A literatura da moda no Brasil, romanceava loiros e mulatos. Se dançava a umbigada nos salões.

O Imperador era a favor do futuro e do conhecimento. Trouxe o telefone e patrocinava a fotografia. Patrocinava Luis Charcot na Europa, o cientista que abriu caminho para Freud. Conversava com Richard Wagner e Friedrich Nietzsche. Tolerante, suportava as críticas mais ferozes dentro de um ambiente de liberdade de expressão. Separava o exercício do poder do enriquecimento pessoal. O Imperador foi a elite avançada, ética, de que o país hoje sente falta. Era um pais diferente em construção. Os irmãos Rebouças equacionavam a problemática distribuição problemática de água no Rio de Janeiro e dirigiam a construção da ferrovia Curitiba- Paranaguá. André Rebouças propõe a reforma agrária e uma nova economia brasileira… Era um empresário de sucesso. Negro. Aconselhava o Imperador como o seu pai já aconselhara antes. O pai de André, filho de uma escrava alforriada e alfaiate português, foi advogado autodidata, deputado e conselheiro de D. Pedro II. Alguns dos gênios de maior prestigio na corte eram negros e mulatos vindos de famílias humildes e entravam no Palácio por mérito e criatividade. Vinham de famílias com ex escravos onde a virtude da colonização portuguesa aparece de maneira comovente: crianças reconhecidas de casamentos assumidos perante a lei e a Igreja, sem proibição, violência e principalmente sem vergonha alguma da cor na pele de seus filhos. A virtude se estende a uma sociedade que ofereceu meios para o talento de homens de cor desabrochar em carreiras brilhantes. Machado de Assis se torna um dos maiores escritores do mundo e cria a Academia Brasileira de Letras. Chiquinha Gonzaga é maestrina da música popular brasileira e faz imenso sucesso. Luis Gama, que foi escravo, se alfabetiza aos 17 anos e vai escrever nos jornais. Cruz e Souza, o poeta simbolista, é filho de escravos alforriados. “João da Cruz desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Souza – de quem adotou o nome de família, Sousa.. A esposa do Marechal, Dona Clarinda, não tinha filhos, e passou a proteger e cuidar da educação de João que aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.”.. está na wikipedia. E ainda tem Nilo Peçanha..

Abolicionistas se dividiam entre o monarquismo e o Republicanismo. A escravidão e a Monarquia eram atacadas ao mesmo tempo. Alguns republicanos flertavam com ideias que impedissem o convívio de negros no melhor espaço social do país.. Joaquim Nabuco, Rebouças, José do Patrocinio eram abolicionistas e monarquistas. A Princesa assina o fim da escravidão e se nega a sangrar os cofres do país para indenizar os proprietários de escravos que passam a apoiar um golpe republicano.   A Princesa se torna a Redentora de um povo que tem tambem sua Padroeira, Nossa Senhora de Aparecida. O Brasil é patriarcal mas sua alma é feminina.. e católica. Começa um culto a Princesa Isabel. O povo negro, os presidiários, as prostitutas, os pobres e humildes amam a Princesa. Há um um sentimento alinhado à família real e os republicanos radicalizam os ataques à Monarquia nos comícios. Nesse momento, o abolicionista José do Patrocínio organiza a Guarda Negra da Princesa.

A formação da Guarda Negra da Princesa Isabel é um episódio ainda misterioso. Falta História… e sobra um símbolo fortíssimo de aliança entre a elite intelectual do país, a corte e seu povo mais pobre, destituído. Esse símbolo é poético: uma princesa devota à caridade, à bondade, protegida por capoeiristas negros libertos da escravidão, prontos a dar a vida por sua redentora e pela monarquia. Capoeiristas das maltas Nagoás de ex-escravos ex combatentes alforriados pela guerra do Paraguai que dominavam o Rio de Janeiro das áreas rurais até o Campo de Santana. Um símbolo de transcendência e transformação: as maltas de marginais donas de territórios na cidade em conluio com políticos pouco afeitos a virtudes, transformadas em elite de combatentes com um ideal. Elite porque tinham ideal: juram defender a Princesa em uma cerimonia secreta quando entram na Guarda Negra.

Quando cai o Imperio, André Rebouças se exila junto com a Princesa e o Imperador. Da wikipedia: “fora a família real, seguiram juntos no vapor – por amizade, e não por imposição republicana – o barão e a baronesa de Loreto, o conde Mora Maia, o barão e a baronesa de Muritiba e o engenheiro abolicionista André Rebouças, com quem o imperador se deleitava em conversar.”.. O exílio de Rebouças é sintomático do fim de uma Era, o fim de um projeto diferente de sociedade, de elite. Esse país onde o povo amava a família real que veio de Portugal é interrompido apesar da dedicação da Guarda Negra em proteger a Princesa. É inegável que hoje o espaço de prestigio social se encontra muito distante do homem de origem simples, de cor, do mulato. Em algum momento, houve um corte. A distinção que antes era de homem livre x escravo se multiplicou em várias distinções que servem como barreira à circulação da inteligência , da justiça, da oportunidade. Distinção de cor, de diploma e formação. Erigiram barreiras entre o Palácio e a rua. Algumas sutis e outras de cimento, grade e arame farpado. A hierarquia social se transferiu para a institucionalização do saber. A universidade, a principio uma ferramenta de liberdade, passa a ser barreira para a inteligência informal não apenas do negro mas de toda forma excêntrica de saber. Luis Gama foi alforriado, se alfabetizou aos 17 anos, estudou o que precisava saber e foi escrever em jornais aquilo que precisava ser dito. Machado de Assis foi estudando e aprendendo. A informalidade do saber foi fundamental para facilitar a ascensão de gênios que eram negros e sem posses. No Império, os originais, o diferente, aquele que se constrói sozinho encontrava a porteira aberta para entrar no palácio, encantar o povo e dialogar com o poder. Houve depois um eclipse sobre o brilho intelectual do homem negro no Brasil. Quando se torna impossivel o surgimento de engenheiros/ líderes como André Rebouças? O Império abriu espaço para André enriquecer o Brasil. Por que hoje somos mais pobres em oportunidade, liberdade, igualdade? Curioso como a Universidade propõe uma divida histórica das elites com o negro sem mencionar em qual período da Historia os negros foram afastados do saber, como se nunca tivesse havido uma voz negra de prestigio nesse país.

É importante revelar virtudes que foram recalcadas e silenciadas. Vamos deixar de lado essa noção precária em que a nossa pasmaceira, injustiça e atraso são consequência da colonização portuguesa, de um D. João bobão e de uma Princesa Carlota Joaquina meio doida. Isso é conversa fiada. Se herdamos algo de Portugal, é a ambição única de miscigenação, de um corpo misturado de branco e negro. Cultura misturada. Poderíamos herdar também a visão de uma Princesa tolerante e bondosa protegida por capoeiristas, a visão de uma corte onde os talentosos entravam pela porta da frente para produzir obras geniais, sem impedimento burocrático, patrocinados por uma elite que se orgulha do gênio sem se importar com a cor de sua pele.

 

 

 

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One Comment to “Império”

  1. Foda. Diabo de galego corajoso.

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