Agente secreto de si mesmo.

Qualquer um pressente que o mar não está pra peixe. É o momento histórico. As formas de comunicação, cultura e vida que nos cercavam  foram destruídas. Cinema, jornal, livro, tv, telefone.. foram miniaturizados. A forma de conhecer e de ser conhecido, de encontrar amor e amizade. As formas  estão sendo todas tragadas para uma tela cada vez menor. Não é  um mundo novo. É apenas uma cópia do antigo como um swatch é cópia digital de um relogio mecanico.  Estamos nos copiando e miniaturizando tambem. Basta observar as mensagens de texto. São miniaturas de frases. E temos a miniatura do pensamento, da politica, da educação.

Virtual é imagem, cópia, falso. É uma Era da Destruição como foram outras eras no passado. Agora é destruição da matéria.  Substituição da natureza, da liberdade , da educação por miniaturas.  E o trágico é que  ainda não apareceu nenhum vislumbre de outro mundo que vai ocupar esse que está sendo copiado antes de ser destruído definitivamente. É a era do Terror. Não há certeza: a dinâmica é do photoshop e manipulação. A História determina que nesse momento, existir é passar para o lado da não existência; para a virtualidade. Tem algo ilógico nessa afirmativa como um paradoxo de Alice no Pais das Maravilhas. Paradoxo é falha, glitch, bug  que interrompe e desmonta a narrativa, a Matrix. Dentro do mundo virtual  ficamos a maneira de Alice atrás do espelho: assistindo o mundo desaparecer. Desolação e medo.

Há algo mais desaparecendo nesse momento: a identidade. Cada um recebe um nome do pai pela graça da mãe e a identidade é construída sobre esse nome. É tarefa difícil, muitas vezes dolorosa e em alguns momentos de dúvida, queremos abandonar o barco. O nome pode ser prisão opressiva quando o sentido de viver cada dia é perdido. Qual Hamlet que não pode assumir quem é e assumir o dever de proteger o nome do pai. Ou o repórter no filme de Antonioni que foge, abandonando a identidade no quarto de Hotel. Triste é o homem ou a mulher que renega o nome do pai. Triste é o pai a quem o filho renega o nome e a herança real que recebe, a ser polida e enriquecida por toda a vida. Somos o mesmo na escola, no futebol, em cada namoro, no serviço militar, no trabalho, na paternidade e maternidade. É obrigação ser fiel ao nome.

Poucos, pouquíssimos podem ter mais de uma identidade… só aqueles que agem entre o mundo e o submundo como agentes secretos, policiais, informantes. De certa forma são párias sociais, carregando a culpa de mentir, roubar e enganar usando outro nome.  Ser ou não ser agora nesse momento pode ser ligado e desligado nas redes de internet aonde se escolhe alguma identidade ligada ao endereço de email. Eu quero viver fora da Historia e principalmente fora da interpretação da Historia que relativiza o ser humano como “fruto de momento histórico”. Peço desculpas ao leitor por não escrever com mais clareza.. como talvez diria Machado de Assis. Sou limitado. Procuro clareza e não encontro com facilidade portanto voltarei aos primórdios

As narrativas primordiais dão imensa importância ao nome. Ao nome das coisas e ao nome de cada um de nós. Percebi ao longo do tempo que admiro textos guiados por uma noção de Eterno. Gosto de textos aonde símbolos se manifestam. Textos que são como uma infusão misteriosa de símbolos e eternidade. Textos que alimentam o pensamento como a infusão alimenta o corpo. Misteriosamente. Infusões literárias amadurecidas em toneis do inconsciente coletivo, como diria o Jung, em arcas sagradas de onde saem as estórias primordiais.

Os primórdios são do meu interesse. Os primórdios que agora são uma narrativa fantástica mas que podem ter sido vida tambem. Ou será que a narrativa é anterior e principia a vida? No começo era o verbo. O homem(e o mundo) existindo porque uma boca narra a sua existência, talvez na fração infinitesimal  do tempo divino. Ser ou não ser.

Quando a palavra  é sequestrada do legitimo narrador, se transforma em um virus destruidor dos seres e coisas que um dia foram designados com amor.

Houve um tempo, próximo do nosso, quando o mito era vivo e respirava entre os homens. O tempo do cordeiro, do pastor, da luta entre Deus e falsos deuses pela obediência dos homens. Árvores, cavernas, desertos e leões conviviam com dragões,o unicórnio, o centauro, o minotauro. A História chama esse tempo de antiguidade. Antigo, velho, impotente, idoso… Um filósofo e um psicanalista enxergaram que não se deve encarcerar o mito no passado porque a perda da unidade entre mito e vida gera um homem que acende a luz elétrica com medo de fantasmas. O pensamento, sem a clareza do mito, não enfrenta as trevas.

Eu não quero viver dentro da História. A História é puro conhecimento e euu quero a sabedoria atemporal. A sabedoria aparece no corpo, nas vísceras, antes de vir a tona na consciência, individualizada e particularizada. O conhecimento é da ordem geral, do livro, da escola, para a consciência, o corpo ausente. A sabedoria é da esfera da humildade. O conhecimento é da esfera social, geral, indiferente ao corpo e produz vaidade. O paradoxo do conhecimento é ser impessoal e ao mesmo tempo vaidoso. Sério e fútil.. A Historia é uma coleção de narrativas sobre ambição que terminam em erros e matanças. Ambições que a custa de muita infelicidade, morte e injustiça, criam apenas mais Historia para descrever como o homem só existe enquanto grupo… Cada um sabe, no intimo, que isso não pode ser verdade. Cada um sabe que é único e que existe quando dialoga consigo mesmo …ou com algo que é difícil para mim enxergar. Cada um sente que a chama da vida queima e ilumina para torná-lo único, que nasce só e morre só e nessa hora sua verdade aparece .. O mito e único. O Minotauro é único. Aquilo que é mais um, indiferente e substituível é miragem; equivoco. Jesus é único.

Há em curso uma trapaça sobre a angústia fundamental de responder ao próprio nome. Eu sou aquele que foi criado e existo para responder pelo nome que recebi e no entanto me oferecem a possibilidade de criar outra identidade, recriando a minha com imagens e fragmentos de vida que tanto podem ser vividos por mim ou não. Posso me tornar o agente secreto de mim mesmo, enganando o passado, presente e futuro com pseudônimos. Estabelecer uma vida virtual. Atacar sem valentia, mentir, namorar sem estar presente. É uma Hubris de dimensões assustadoras. Hubris é o pecado da onipotência. A funçao de criar um homem a minha semelhança, nomeá-lo e dar a ele qualidades é função Divina.Voce lembra como no filme Blade Runner, os andróides se agarravam as suas fotografias, criadas para simular uma infancia e uma identidade? Era sempre o momento mais triste do filme.

Feliz Natal.

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2 Comentários to “Agente secreto de si mesmo.”

  1. Obra prima de fim de ano. Pelo que fala e pensa de si. Pela citação; Na hora que fala de Blade Runner atinge meu útero, meu coração recauchutado, me tempo finito experimentado na ponta afiada do punhal apontado sabe deus para onde. Ser ou n ão ser, a pergunta ancestral e plagiada, desde a idade Média, entre os entendidos… e os que ficavam de fora, à espreita, lugar privilegiado da desconfiança e da entrega. Este é o convite que não muda e que não deve se perder no meio das armadilhas dos replicantes.

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