Archive for dezembro, 2015

dezembro 31, 2015

Lua vermelha #8

_ O que mais queres da tua vida?

_ Olhar a lua no céu e ouvir o ruido do mar.

_ Então defende a lua  e defende o mar .

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dezembro 31, 2015

just killing my time.

dezembro 30, 2015

30/12/2015

paisagempaodeacuca30dedezembrode2015Depois da chuva

dezembro 30, 2015

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 13.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 5 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

dezembro 25, 2015

Agente secreto de si mesmo.

Qualquer um pressente que o mar não está pra peixe. É o momento histórico. As formas de comunicação, cultura e vida que nos cercavam  foram destruídas. Cinema, jornal, livro, tv, telefone.. foram miniaturizados. A forma de conhecer e de ser conhecido, de encontrar amor e amizade. As formas  estão sendo todas tragadas para uma tela cada vez menor. Não é  um mundo novo. É apenas uma cópia do antigo como um swatch é cópia digital de um relogio mecanico.  Estamos nos copiando e miniaturizando tambem. Basta observar as mensagens de texto. São miniaturas de frases. E temos a miniatura do pensamento, da politica, da educação.

Virtual é imagem, cópia, falso. É uma Era da Destruição como foram outras eras no passado. Agora é destruição da matéria.  Substituição da natureza, da liberdade , da educação por miniaturas.  E o trágico é que  ainda não apareceu nenhum vislumbre de outro mundo que vai ocupar esse que está sendo copiado antes de ser destruído definitivamente. É a era do Terror. Não há certeza: a dinâmica é do photoshop e manipulação. A História determina que nesse momento, existir é passar para o lado da não existência; para a virtualidade. Tem algo ilógico nessa afirmativa como um paradoxo de Alice no Pais das Maravilhas. Paradoxo é falha, glitch, bug  que interrompe e desmonta a narrativa, a Matrix. Dentro do mundo virtual  ficamos a maneira de Alice atrás do espelho: assistindo o mundo desaparecer. Desolação e medo.

Há algo mais desaparecendo nesse momento: a identidade. Cada um recebe um nome do pai pela graça da mãe e a identidade é construída sobre esse nome. É tarefa difícil, muitas vezes dolorosa e em alguns momentos de dúvida, queremos abandonar o barco. O nome pode ser prisão opressiva quando o sentido de viver cada dia é perdido. Qual Hamlet que não pode assumir quem é e assumir o dever de proteger o nome do pai. Ou o repórter no filme de Antonioni que foge, abandonando a identidade no quarto de Hotel. Triste é o homem ou a mulher que renega o nome do pai. Triste é o pai a quem o filho renega o nome e a herança real que recebe, a ser polida e enriquecida por toda a vida. Somos o mesmo na escola, no futebol, em cada namoro, no serviço militar, no trabalho, na paternidade e maternidade. É obrigação ser fiel ao nome.

Poucos, pouquíssimos podem ter mais de uma identidade… só aqueles que agem entre o mundo e o submundo como agentes secretos, policiais, informantes. De certa forma são párias sociais, carregando a culpa de mentir, roubar e enganar usando outro nome.  Ser ou não ser agora nesse momento pode ser ligado e desligado nas redes de internet aonde se escolhe alguma identidade ligada ao endereço de email. Eu quero viver fora da Historia e principalmente fora da interpretação da Historia que relativiza o ser humano como “fruto de momento histórico”. Peço desculpas ao leitor por não escrever com mais clareza.. como talvez diria Machado de Assis. Sou limitado. Procuro clareza e não encontro com facilidade portanto voltarei aos primórdios

As narrativas primordiais dão imensa importância ao nome. Ao nome das coisas e ao nome de cada um de nós. Percebi ao longo do tempo que admiro textos guiados por uma noção de Eterno. Gosto de textos aonde símbolos se manifestam. Textos que são como uma infusão misteriosa de símbolos e eternidade. Textos que alimentam o pensamento como a infusão alimenta o corpo. Misteriosamente. Infusões literárias amadurecidas em toneis do inconsciente coletivo, como diria o Jung, em arcas sagradas de onde saem as estórias primordiais.

Os primórdios são do meu interesse. Os primórdios que agora são uma narrativa fantástica mas que podem ter sido vida tambem. Ou será que a narrativa é anterior e principia a vida? No começo era o verbo. O homem(e o mundo) existindo porque uma boca narra a sua existência, talvez na fração infinitesimal  do tempo divino. Ser ou não ser.

Quando a palavra  é sequestrada do legitimo narrador, se transforma em um virus destruidor dos seres e coisas que um dia foram designados com amor.

Houve um tempo, próximo do nosso, quando o mito era vivo e respirava entre os homens. O tempo do cordeiro, do pastor, da luta entre Deus e falsos deuses pela obediência dos homens. Árvores, cavernas, desertos e leões conviviam com dragões,o unicórnio, o centauro, o minotauro. A História chama esse tempo de antiguidade. Antigo, velho, impotente, idoso… Um filósofo e um psicanalista enxergaram que não se deve encarcerar o mito no passado porque a perda da unidade entre mito e vida gera um homem que acende a luz elétrica com medo de fantasmas. O pensamento, sem a clareza do mito, não enfrenta as trevas.

Eu não quero viver dentro da História. A História é puro conhecimento e euu quero a sabedoria atemporal. A sabedoria aparece no corpo, nas vísceras, antes de vir a tona na consciência, individualizada e particularizada. O conhecimento é da ordem geral, do livro, da escola, para a consciência, o corpo ausente. A sabedoria é da esfera da humildade. O conhecimento é da esfera social, geral, indiferente ao corpo e produz vaidade. O paradoxo do conhecimento é ser impessoal e ao mesmo tempo vaidoso. Sério e fútil.. A Historia é uma coleção de narrativas sobre ambição que terminam em erros e matanças. Ambições que a custa de muita infelicidade, morte e injustiça, criam apenas mais Historia para descrever como o homem só existe enquanto grupo… Cada um sabe, no intimo, que isso não pode ser verdade. Cada um sabe que é único e que existe quando dialoga consigo mesmo …ou com algo que é difícil para mim enxergar. Cada um sente que a chama da vida queima e ilumina para torná-lo único, que nasce só e morre só e nessa hora sua verdade aparece .. O mito e único. O Minotauro é único. Aquilo que é mais um, indiferente e substituível é miragem; equivoco. Jesus é único.

Há em curso uma trapaça sobre a angústia fundamental de responder ao próprio nome. Eu sou aquele que foi criado e existo para responder pelo nome que recebi e no entanto me oferecem a possibilidade de criar outra identidade, recriando a minha com imagens e fragmentos de vida que tanto podem ser vividos por mim ou não. Posso me tornar o agente secreto de mim mesmo, enganando o passado, presente e futuro com pseudônimos. Estabelecer uma vida virtual. Atacar sem valentia, mentir, namorar sem estar presente. É uma Hubris de dimensões assustadoras. Hubris é o pecado da onipotência. A funçao de criar um homem a minha semelhança, nomeá-lo e dar a ele qualidades é função Divina.Voce lembra como no filme Blade Runner, os andróides se agarravam as suas fotografias, criadas para simular uma infancia e uma identidade? Era sempre o momento mais triste do filme.

Feliz Natal.

dezembro 22, 2015

A fotografia, o retrato e a identidade

 

O aspecto mais importante da fotografia é definir a identidade de coisas e pessoas.

A fotografia deixa de ser apenas uma curiosidade científica e ocupação exótica quando a Kodak aparece com cameras e filmes em rolo. Até então só familias de posses e posição podiam contratar retratos a um pintor. Após a popularização e massificação da fotografia ocorre uma transformação radical na maneira como somos identificados. Antes da Kodak, não eramos determinados pela fotografia. Após a Kodak, tudo e todos serão identificados com imagens. A fotografia não tem a subjetividade, a interpretação da pintura. A pintura nunca se identifica completamente com o Real. A pintura cria imagem, interpreta o olhar. A fotografia passa a ser o Real.

A pintura é maleável a interpretação. A fotografia é uma tecnica “dura” ; a perspectiva e o claro escuro são determinados pela camera. A fotografia revela algo intrinseco ao objeto.. independente do sujeito que olha. A fotografia é irredutivel de certa forma, não expansiva. O primeiros fotografos “de arte” disfarçavam a irredutibilidade da imagem fotografica com foras de foco diáfanos e cenários teatrais criando um atoleiro estilistico de climas e drama, guiados pela pior pintura. A fotografia era uma tecnica nova aguardando por uma nova sociedade, assumidamente cientifica, para revelar seus novos valores. O seculo XX.

Os artistas de vanguarda entenderam que a camera era a materialização de uma ideologia. A camera não interpretava a priori, como fazia o pintor mas “revelava” um duplo da visão, um outro aspecto dos seres e objetos ainda virgem de interpretações. Duchamp se deixou fotografar como mulher, Rose Selavy. Para os surrealistas, a camera fotografica era o seu principio e ideário materializado em objeto industrial (se conhecessem a camera automatica, teriam ainda outro extase!).

Paul Strand fotografou então as proprias cameras: elas eram o novo sujeito/ objeto. Nenhum artista jamais pintou um pincel. A mecanica e a objetividade eram uma vanguarda. A camera, um olho/ memoria capaz de ver de muito perto, de baixo, por cima, por dentro do tempo. Eram novos pontos de vista. Manuel Alvarez Bravo fotografou a morte: um corpo de um jovem assassinado, ao chão, sangue escorrendo da boca, a vida não mais presente.. e a beleza intacta. O pais do sol e da morte. As fotos de Bravo, sempre sob o sol forte. Alvarez Bravo encontrou o que os latino americanos sempre buscam desesperadamente: uma arte avançada de carater local. A fotografia Mexicana.

Logo após Duchamp inverter um Urinol e nomeá-lo fonte, Edward Weston fotografou um vaso sanitario. O titulo da imagem: Excusado. Weston tinha largado carreira comercial, mulher e filhos e se mudado para o Mexico com Tina Modotti. Excuse him… Tinha feito merda. Latrina, merda, exilio, marginalidade. A privada de Weston, banhada em uma luz delicada, Duchampianamente, lembra as igrejas de adobe de Taos, do Novo Mexico. Inversão de expectativa e sentido.

Enquanto a vanguarda criava ambiguidade, a fotografia fazia parte de um projeto inverso: identificar tudo e todos de maneira inequivoca. Em muito pouco tempo passamos a ser identificados através de imagem em passaportes, carteiras de identidade, jornais, filmes, televisão. Dominio absoluto da imagem fotográfica no cotidiano. A fotografia ganha total independencia da arte e constitui um novo conhecimento feito de frações de segundo aonde tudo que há se faz imagem e o mistério desaparece. A religião se torna obsoleta. A fotografia é clara: imagens de balas de revolver atravessando o espaço, de fetos na placenta, dos anéis de Saturno, de soldados no momento de sua morte. A mulher mais bela, o feito mais audacioso, a guerra mais sangrenta, o ártico e antártico. A imagem se torna prova e evidência, não mais interpretaçao e subjetividade. A imagem passa a ser o conhecimento do Real, valendo mais do que mil palavras.

Como? Não pertencemos ao mundo de concepção judaico cristã aonde Deus, a verdade é palavra? Como posso ser conhecido em imagem quando a consciencia e aquilo que sou é palavra? Do antigo testamento ao inconsciente psicanalitico cabe a palavra enunciar a verdade. A imagem não constitui verdade nos textos sagrados. A imagem é superficie … e no entanto cria-se uma sociedade de informação a base de “imagem documental”: fotojornalismo, foto de identidade. Há uma expansão do ícone religioso, da materialização, do ídolo. A imagem fotografica, produto de uma sociedade cientifica, resultado da expansão capitalista da Europa cristã é claramente um anti cristo(Piss Christ, de Andres Serrano faz sentido).

A sociedade de imagem é um travestimento, uma farsa aonde se pretende recuperar o paraiso perdido. Todo o corpo e materia, renegados pela moralidade monoteista, passam a ser representados obsessivamente. Corpos e faces gigantescos no Times Square. Dos anuncios de lingerie a National Geographic, a imagem fotografica reproduz obsessiva e incessantemente a natureza. A sociedade de imagem é ansiosa porque é uma sociedade de simulacros. Tudo é mostrado e nada é usufruido. A natureza é prometida em imagem e a promessa não é cumprida. É um acordo tácito: eu recebo a informação, o fato… mas não a coisa em sí. A imagem se torna exasperante. A imagem documento promete o saber e é incapaz de cumprir. Há uma inversão histérica da repressão aos sentidos com o oferecimento de imagens cada vez produzidas em maior velocidade. A ficção necessária ao entendimento da vida, o mito, é desmoralizado por “documentos”e fatos. Em lugar da repressão aos sentidos, a ausência de sentido. Ausencia de identidade.

A fotografia revelou a sua vocação: aparato de controle e alienação. Moda , beleza, paisagem, jornalismo, festas de casamento e batizado. Villhem Flusser, em seu livro sobre a fotografia, deixou claro que o fotografo trabalha para ampliar a capacidade da maquina fotografica. Os sistemas avançados de fotometria por exemplo, se baseiam em milhares de fotos já realizadas. A memória do computador instalado na camera, compara a imagem enquadrada no visor com um arquivo de imagens impessoais “de qualidade” e regula a maquina. Esse é o exemplo mais óbvio. Fluss pensa como William Burroughs, muita gente na ficção cientifica e o pai de todos eles: Kafka. Já vivemos a sociedade da Máquina, para alem do humano. Terminator. Extensões do corpo em vias de substitui-lo. Humanismo em conflito com a ascenção de robôs e cyborgs. O conhecimento se torna informação que é coletivizada na internet em uma grande memoria coletiva, sem valores criticos; um cerebro tecnologico que mede a importancia de cada assunto pelos hits no Google. Trabalhamos para esse grande cerebro postando no Facebook, teclando no Google, no Youtube. O cerebro maquina dividindo sua satisfação em ser acionado com grunhidos e barulhinhos fofos. Quem assistiu ao Naked Lunch de Cronnemberg, percebe a assustadora analogia daquelas baratas/ maquinas de escrever repulsivas e seu prazer em serem tocadas com a nossa navegação compulsiva na internet. As dadivas tecnologicas estão devorando os valores e significados da cultura. Se Paul Strand, um humanista, soubesse que a maquina se tornaria Senhor e o fotografo, servo, pensaria duas vezes antes de fotografá-la .

Os fotografos bem sucedidos comercialmente em generos como o fotojornalismo, moda, still life são refens do seu papel dentro da maquina social quando avançam as estéticas fotográficas. O fotojornalismo traz uma falsa inclusão para aquele que vê imagens da “realidade”(nome sintomatico de uma revista). Ele é excluido do mundo de ações. Ele é um espectador. Susan Sontag observou que quanto mais o individuo se vê diante de imagens documentais da violencia mais mais insensivel ele se torna. Quanto mais expostos as imagens de uma ignominia mais alienados nos tornamos do sentido daquela tragédia. O individuo inserido no fluxo de informação não age já que o mundo do qual ele tem tanta consciencia é sempre uma superficie, uma tela, imagem fotografica.

A segunda metade do seculo XX foi a falencia da individualidade através de sua exacerbação. O individuo para quem tudo aparentemente se dirigia entrou em colapso. Não é a toa que as fotos de Andreas Gurski arrebataram a todos nós; o seu assunto é a multidão. Centenas, milhares de pessoas povoam suas imagens. Olhar para as suas fotos é uma epifania: tomamos consciencia da multidão como novo sujeito/ objeto da história. A contemporaneidade estimula um individuo a opinar, votar, participar … ao mesmo tempo o torna uma reliquia. Ele não é mais o objeto do pensamento e da arte e não é o sujeito da transformação. O livre arbitrio se tornou uma reliquia. Não é a toa a necessidade premente do Budismo e da Yoga. A alienação é tão extrema que adoecemos de tristeza e solidão. Só o saber do corpo pode nos trazer um renascimento do espirito. O saber da imagem foi superado pelo saber da palavra em determinado momento da Historia porem esse saber se mostrou impotente para dar conta da desumanização. O saber do corpo é a nova fronteira, criada por artistas como W Burroughs, na era de Aquarius e liga o ser direto a materia sem se deixar enredar por necessidades de Estado.

Com a rara exceção de Helmut Newton que mostra a conexão sexo> poder e coloca a mulher como mestre e escrava, os fotografos de moda se dedicaram ao Belo.. e produziram zero de conhecimento sobre o mundo. A arte produz verdade enquanto alegoria/ ficção. A arte é revelação (assim como a fotografia) e jogo, como o xadrez. “As meninas” de Velazques promove um jogo de olhares: Na cena retratada, o pintor faz um retrato os reis de espanha. Eles, que presidem toda a ordem social, não aparecem. Vemos as meninas, as coadjuvantes. Exatamente como em uma foto de moda ou publicidade aonde vemos so coadjuvantes: modelos e produtos. Mas Velazquez mostra que a pintura é sobre os donos do poder. O espectador tem que agir sobre as peças daquele tabuleiro e interpretar o que esta sendo mostrado. POrque o fotografo de moda não ocupa uma posição de revelação do poder? Porque ele não cumpriria o mesmo papel de Velasquez revelando o tabuleiro social e o seu proprio papel em revistas como a Vogue? Talvez porque o poder seja a propria camera, a industria, a maquina… Talvez por isso os artistas contemporaneos enfrentam, se debatem com a perspectiva e a verdade da imagem fotografica. Quando deformam a perspectiva e adotam dois ou mais pontos de vista diferentes na mesma imagem ( Loretta Lux) ou incorporam varios tempos de exposição na mesma imagem como Gurski, Michael wasely e Sugimoto, criando imagens sem laços com a propria visão…eles representam a propria fotografia.

O que seria um retrato “bem feito”? Enaltecimento de uma personalidade? O sujeito fotografado a priori é “carismático”, “inteligente” ou “sexy”.. O retrato nos meios de comunicação afirma o carisma de um individuo; o que quer que isso signifique. Um momento de ruptura se deu na coleção de retratos do fotografo Richard Avedon. Ele foi o mais potente produtor de elegancia, brilho e glamour de todos os tempos; capaz de criar auras radiantes para retratos e glamour de extase para as paginas de moda. Em determinado momento, Avedon tem uma epifania e abandona o belo. Ele ataca as aparencias. Seus retratos de nomes celebres da sociedade americana se tornam opacos … de uma solidez repugnante. A materia se torna repugnante. Avedon passa a utilizar uma luz dura, crua. A camera escolhida é pesada e lenta de operação. Ele cria imobilidade, peso nas imagens. O retratado sofre desconforto e insegurança. A vida expressa nas imagens é desconfortável, terrivel.. um fardo. As imperfeições fisicas se tornam um assunto. A existencia é provaçao, um fardo. A imagem do homem não seduz. A personalidade é palavra e não imagem. Descrever o ser em retrato, em imagem não é possível.

Por outro lado Avedon é um americano e para os americanos a individualidade é o fundamento da sociedade. A psicologia do individuo é preciosa. A principio seus retratos parecem comentar a solidão, a tensão gerada pela existencia. Seus retratos parecem fundados e ligados a psicologia. O retrato seria o encontro de uma verdade comum a todos nós: o desconforto da existencia. Já seria algo proximo a moral monoteista mas Avedon vai mais alem. Não sei dizer se foi ele o primeiro fotografo a encontrar esse ponto mas Avedon descobre um “furo” estrutural da fotografia: sua vocação para definir identidade seria um mito. Ele encontra uma dissociação de materia e espirito. O Espirito está ausente da imagem. A fotografia não revela o brilho (e poder) do sujeito. Apenas carne, pele, osso e olhares perdidos. Há pouca identidade entre imagem e objeto.

O exemplo mais expressivo desse momento de ruptura é o retrato do escritor Truman Capote. Conhecido por sua verve espetacular, Capote é sucesso, encantamento e Glamour. Na foto de Avedon, é um homem de pele gasta e olhar opaco. O contraste entre imagem e poder, identidade… consciencia do retratado, é impressionante. Truman Capote não está alí! A inteligencia está em outro lugar. A conversa brilhante não está alí. Avedon recusa os truques e não emposta no corpo de Capote uma identidade cliché. Aquele retrato não revela um homem e sim as proprias limitações da imagem na representaçao da identidade. Arte.

Eu duvidei da conquista de Avedon a principio. Seu status de fotografo celebridade permitiria adotar uma postura gauche e produzir uma foto “ruim” de Truman capote . Seria um maneirismo, uma estetica “cool”. Foi quando comecei a pensar os problemas da palavra x imagem que entendí como ele abandonou a estetica para reencontrar a ideia basica do monoteismo: a verdade do ser não se revela em imagem. Os retratos de Avedon reencontram a visão monoteista, judaica do sujeito no mundo.

Os alemães constituiram uma consciencia de cunho social. Marx escreveu sua teoria e projeto comunista para e sobre a Alemanha. A identidade é dada a partir do social na Alemanha. August Sander desenvolveu um projeto ambicioso: faria um retrato da Alemanha em retratos de individuos alemães . O projeto foi adiante até a tomada definitiva do poder pelo nazismo quando seu estudio e arquivos foram empastelados pela policia politica. Sander fotografou os alemães colocados em sua posição na ordem social: o individuo de Sander exerce uma função. O pedreiro, o juiz, o estudante, o intelectual, o artista… a criança cega, o cigano. A humanidade de cada um dos retratados deveria emergir porem contida formalmente no uniforme e postura referente a cada função. Sander encontra um reflexo tenue, uma certa ambiguidade em relaçnao a esse papel mas o individuo parece estar adaptado, colocado em seu lugar. A hieraquia simplesmente existe ao mesmo tempo que um brilho do espirito humano. Aquela tenue transcedencia da materia. Na coleção de retratos de Sander, o individuo não luta contra seu lugar no mundo. Sander é neutro em relação a hierarquia social e essa neutralidade é avançada. Um conservador? Os fotografos de 1930 e poucos nos Estados Unidos, Mexico e Europa eram ligados ao socialismo e aos movimentos de transformaçao da hierarquia social. Não há crítica social em Sander, apenas reconhecimento. Porque a repressão do Nazismo ao seu trabalho? Foi por reconhecer ciganos, artistas, homossexuais, judeus na ordem alemã. Por representar a Alemanha sem consultar os Fascistas. Em uma de suas fotos, tres rapazes camponeses se dirigem ao mercado em dia de domingo. Eles estão em uma estrada enlameada, vestidos como cavalheiros, dandis com bengalas e chapéus posando para a camera. A composição é simples. Sander não sugere nada além da contradiçao campo x cidade mas alí aparece de maneira elegante e sucinta um momento da historia alemã: a luz atraente da cidade sobre o campo, os valores urbanos transformando e conquistando o coração dos camponeses. Essa imagem de Sander aparece em um documentario do cineasta Wim Wenders, “Notebook on cities and clothes”, sobre o estilista Yohji Yamamoto nos anos 80. O designer tem as fotos de Sander como matriz inspiradora de suas coleções de moda e essa em particular é a que mais move sua inspiração. Em outro retrato de Sander, um jovem intelectual de olhar inteligente segura um cigarro entre dedos delicados… Eu me pergunto: Qual o estado de alma desse individuo? Não há psicologia na imagem, só a pose. Não sei se as figuras de Sander se sentem sós, se são alegres ou tristes. Existir, nesses alemães, se dá através de um lugar na sociedade e um lugar vale tanto quanto o outro: todos eles são fotografados pelo mesmo angulo. Para Sander a observaçao é uma função da curiosidade e não do enaltecimento ou critica. Essa neutralidade antecipa os anos 80 quando aceitamos um individuo equilibrado entre determinação social e provação psicológica. Até que Gurski e outros alemães da Escola de Arte de Dussseldorff abandonam de vez esse individuo dilacerado como motivo da obra de arte.

Thomas Ruff, companheiro de Gurski, acabou com a identidade em suas imagens alterando os rostos no computador, eliminando caracteristicas. Ele faz o mesmo nas fotos de exteriores de edificios, eliminando detalhes que atrapalhem uma imagem “ideal”do lugar. Huff procura a simetria nos rostos e na paisagem urbana. A dieia de Belo e mesmo de arte está ligada a simetria e proporçnao., a luta contra o caos e a irregularidade do muhdo. Esse caos nõa nos deixaria a possibilidade de conhecimento e coerencia. A simetria é uma solução, um meio, um controle sobre o mundo. A propria ideia de que o homem “naturalmente”procura a simetria é uma verdade cientifica para explicar a noção de Beleza. Ruff aplica essa ideia, levando a um extremo grotesco. Suas imagens nõa são bonitas, não criam identidade para os objetos mas sim para o fotografo: uma identidade de artista intelectual, de critico de sua propria função: um destruidor de estéticas.

Americana, Annie Leibowitz vai no caminho exposto . Nos Estados Unidos, o individuo é antisocial. Os americanos glorificam seus outsiders: gangsters, crazies, beatniks, rockers.. Os idolos estão em luta contra a hierarquia. A sociedade é uma limitação para o indivíduo e toda a realizaçao plena se dá na realização de uma fantasia individual. Living the dream, como diz a expressão. Os Estados unidos são a terra dos imigrantes que cruzaram o horizonte, o oceano e encontraram uma nova identidade. A sensibilidade americana é tocada pelo individuo que supera aquela identidade fornecida pela familia, pela cidade pequena e cria uma outra, mais fiel ao seu desejo. Para realizar a transformação o individuo precisa de poder, através da violencia e da fama. Jesse James, Al Capone, Louis B Mayer, Madonna. Esses indivíduos se reinventaram. Louis B Mayer passou de judeu imigrante, pobre, ignorante e humilhado a todo poderoso produtor de cinema, contador de estorias. Madonna? Elvis? Ao contrario da Alemanha, a America é o lugar da transformação individual. O papel do Americano é não aceitar um papel mas criá-lo. A fotografia de Annie Leibowitz representa literalmete essa reinvenção do individuo. Ela não só mostra o resultado, o individuo em sua nova pele mas tambem os instrumentos, o processo de transformação. É a sua marca, São os tripes, as bordas de fundo infinito, os ventiladores aparentes nas fotos. A luz artificial e a luz natural presentes na mesma imagem. A foto de Leibowitz é uma passagem.

As estrelas de Leibowitz interpretam a si mesmos em novos papéis. Assim como os imigrantes, os miseraveis se tornaram colonos, gangsters e produtores de cinema, os atores de Leibowitz se tornam colonos, cowbois e figuras da Disney. É a exasperação da fantasia Americana. Whoopy Goldberg em uma banheira de leite, Demi Moore gravida, nua.. imagens de choque que se alimentam da reação puritana catapultando a fama e o poder dos atores. Representação gerando mais representação. A America é um imenso artificio. Annie Leibowitz é uma artista Americana por excelencia. Ela está falida. Deve fortunas aos bancos. Leibowitz se identifica com os americanos tambem nesse momento de quebradeira e falencia.

Ao refletir sobre esses fotógrafos, meu interesse é provocar um questionamento tambem sobre a ideia de imagem brasileira. A idéia sempre nos parece duvidosa. A imagem no Brasil não se afirma. A incapacidade de promover cidadania que se arrasta indefinidamente nessa sociedade se confunde com a dificuldade de produzir imagem… porem isso é uma falácia. A Italia gerou visualidade em quantidade e qualidade durante a idade média, renascença, maneirismo, barroco enquanto as massas viviam na mais abjeta miséria. Assim como a Alemanha, os Paises Baixos. A dificuldade para a visualidade deve estar ligada a posição de colonia como dizia Glauber Rocha. As missões francesas e holandesa produziram imagem no Brasil porem daí não resultou fundamento para a produção visual de desenvolver. A maneira de ver, constituida na Europa e na America, quando chega aqui, se mostra incapaz de de propor questão, de chegar ao sublime na paisagem ou no retrato. Ao contrario, a imagem no Brasil aparece sempre próxima do ridiculo. Nem satírica ela é… mas ridícula. A vanguarda contemporanea no Brasil é iconoclasta. A relação da arte de vanguarda com a paisagem não produz imagem mas um relato do transe, da penetração: ser possuido pela paisagem, possuido pelo ambiente e pela multidão. É uma arte do corpo. O carnaval, o neo concreto. A Face Gloriosa de Arthur Omar. Os penetráveis de Helio Oiticica. O nome do disco mais radical de Caetano Veloso. A mata densa dos tropicos não deixa aparecer um horizonte. A mata tropical fechada, enigmática, enlouquecedora… Como o Congo de Joseph Conrad no Coração das Trevas. Enquanto na paisagem de Caspar Friedrich e Andreas Gurski o artista observa o horizonte, o brasileiro está dentro da multidão. Qual imagem fotografica produzir em um pais que avançou tanto na geometria e abstração?

 

Flavio Colker 07 de Setembro de 2009/ 12 de Outubro.

 

Para Jaime Carvalho.

 

 

 

dezembro 20, 2015

saí do facebook

Veja bem: eu adorava abrir o facebook. Era uma alegria, uma festa. Nunca me incomodei em ficar horas contando piadas, criando confusão, flertando, brincando com os amigos ou expressando minha indignação. Nunca perdí tempo. Sempre foi um ganho. Eu até brincava dizendo que me candidataria a vereador como “Flavio.. do Facebook”.

E eu saí da rede. Ou melhor: fui saído.. bloqueado, a conta eliminada. A razão? Nunca me foi comunicada e justificada mas eu tenho quase certeza ser devida a uma carta, inbox, com a foto de um menino nu. Uma obra de arte catalogada em museus, de Edward Weston, foto do seu filho. Minha amiga tambem foi bloqueada ao enviar inbox a mesma foto. A conta dela voltou e a minha não. Vigiam as cartas. Não deveriam ser privadas? Eu posso voltar ao Facebook. Basta entrar com outro email e assinar meu nome de maneira ligeiramente diferente. Só que eu não vou expor de novo os meus textos, contatos e cartas para serem confiscados do nada. Sem ter  com quem reclamar porque assinei um contrato com uma empresa aonde eles decidem o que é ou não é conteúdo impróprio, podendo mudar a qualquer momento os parâmetros. Eu havia publicado abertamente a foto do Weston, o menino nu,  alguns meses antes.

Qual o serviço prestado pelo Facebook? Esse serviço é prestado sob qual legislação brasileira de proteção ao consumidor? A quem eu reclamo? Cadê meus diretos? Pois é.. Fui bloqueado na véspera do aniversário de três anos do meu filho e a festa tinha sido organizada através do Facebook. Não darei mais esse poder a qualquer rede social. Não serei bloqueado e minha vida social confiscada por uma empresa que age como um Estado a margem da lei. Uma tirania arrogante que se apresenta como promotora dos direitos humanos.  Estado policial que apenas Kafka poderia imaginar, onde os cidadãos entram alegres por livre e espontânea vontade para serem explorados como mão de obra, produzindo o conteúdo que alimenta a rede. Não consigo pensar em nada mais semelhante a um Estado totalitário futurista. Democracia aonde se lincha sem argumento, prova, defesa e julgamento. Democracia da turba que se repete indefinidamente.   O Facebook é tão democrático como uma prisão de segurança máxima.

“Mas eu entro para me divertir”… para relaxar do trabalho. e brincar um pouco”.. E encontrar todo mundo se degladiando. Ex-presidente  se dirigindo aos militantes no facebook. Militantes insultando coxinhas. Atrizes negras sendo atacadas. Atrizes negras se promovendo ao serem atacadas. Militantes acusando racismo que nas ruas e casas ninguem  presencia. Nus inocentes sendo proibidos. Amigos rompendo amizades por causa de propaganda política enquanto o ex-presidente que roubou descaradamente seus eleitores faz declarações na rede. O Facebook é acolhedor e divertido como um arrastão.

“Mas eu entro para trabalhar”…  trabalhar para a rede,  produzindo conteúdo. A rede ganha trilhões. Resisti a protestar e mesmo escrever a respeito da minha expulsão. Precisava entender se seria capaz de viver sem o Facebook. Queria amadurecer minha posição. E amadureci: o mundo ficará melhor quando todos saírem das redes sociais. Para que  possamos de novo guardar o que estamos pensando. Para que o mistério sobre a vida privada seja revelado apenas a quem conquistou nossa confiança.Que fiquem apenas os militantes.

O facebook foi um aprendizado, um laboratório para aprender a  sensibilizar o outro com a escrita… agora é hora de voltar para a solidão  onde não vigiam nossa correspondência e não somos perturbados por turbas de linchamento politicamente corretas.

ADENDO_ O texto deveria ter tocado no principal. A rede funciona através de um algoritmo. Um numero inserido no computador que determina como voce esbarra nas pessoas, como os conhecidos e desconhecidos são dirigidos a sua página. O numero racionaliza tambem as reclamações a seu respeito, o boicote a sua pagina. A página do movimento Vem pra Rua foi suspensa as vésperas de uma manifestação que organizaram para atacar o governo. Os governistas em peso, exercendo seu papel de militantes virtuais, denunciaram  conteúdo impróprio.  O algoritmo computou as denúncias e fechou a página. Facebook é a democracia ideal para o dedo duro. A rede dá poder a massa sem garantias para o individuo. A democracia deve ser voltada a liberdade do individuo e garantir sua excentricidade! A graça do ser humano é ser diferente. É ser do contra.

Pretender que a simpatia, amizade e amor entre seres humanos seja dirigida através de um algoritmo é uma estupidez tecnológica.

Saiam dessa porcaria. A rede é escravidão.

 

dezembro 18, 2015

Diálogo de verão.

_ Tava pensando aqui…  Lembra da guerra contra o Pastor Marco Feliciano? Aquele que abomina o homossexualismo e coordenava a Comissão de Direitos Humanos?

_ Lembro.

_ O pessoal fazia piada dizendo que o fervor anti gay do deputado era o seu homossexualismo querendo sair do armário!

_ Pois é.. o individuo sentindo necessidade de reprimir aquilo que o ameaça lá de dentro do inconsciente.  Freud explica!

_ Mas vem cá.. e o sujeito que enxerga racismo em todo lugar? Tudo pra ele é racismo, machismo, sexismo…Ele tambem tá reprimindo o próprio preconceito?

 

 

 

 

 

dezembro 18, 2015

Conhecimento, verdade, prazer etc..

 

Tem aquela famosa pergunta ridícula: qual o sentido da vida? A resposta é: a busca de sentido é o sentido da vida.. Eu faço outra pergunta: qual o prazer da vida? Eu entendo como vida, a experiência de estar consciente. Então, qual o prazer da consciência? O prazer da consciência é ser expandida: saber mais .. superar o que se sabe muitas vezes contradizendo o que sabía, mudando de idéia. O prazer da consciência é o mesmo  do universo: crescer e se multiplicar, influenciando.

O prazer de estar consciente é o prazer de aprender. Aprender novas sensações em novos lugares. Aprender como funciona a natureza através da física, a matemática, a filosofia e a teologia. Até o amor acontece em consequência do desejo de aprender. A paixão acontece quando encontramos alguém que sabe sobre o amor.. Procure lembrar desses momentos… primeiro acontece a admiração, seja pela elegância física ou mental e depois a lógica do coração se estabelece: taí alguém que vai me mostrar algo sobre o amor. Antes da posse, aparece a consciência da vontade de aprender. Não por acaso, o amor entre aluno x professor é um caso clássico.

Vamos continuar com o aprendizado em lugares pouco ortodoxos. Por exemplo, a propaganda. A televisão anuncia um carro que é sinônimo de Liberdade, Aventura, Classe, Sexo…. Bobagem.. Essa receita está falida. Essa fase acabou.. As promessas de felicidade fornecidas por um nome tem sabor de decepção. Imediata quase.. Outro dia eu acompanhava um debate entre artesãos de bicicletas, feitas a mão.. sob medida. É um tipo de criação peculiar: a interação entre construtor, ciclista e maquina cria um caso de amor, uma busca de felicidade. No debate, os artesãos queriam um marketing que garantisse sua sobrevivência comercial. A mágica estaria no nome, na marca, segundo um publicitário que apareceu entre eles.. no culto a personalidade. Errado. O nome deve carregar algo consigo; conhecimento. Queremos a “coisa real” porque a vida é curta. Queremos ser admirados. Admiração pelo dinheiro apenas, é suspeita. Talvez o dinheiro não seja merecido. A admiracao inequívoca é oferecida aquele que conhece mais.. Conhecimento sobre o mecanismo dos materiais, sobre as possibilidades amorosas; sobre o espirito, o corpo e a mente humana.

Admiramos os mestres… e admiramos a hierarquia do saber. Nas artes marciais, a admiração pelo saber e o aprendizado acontecem com estrito respeito a hierarquia. Há um amor pela hierarquia no Dojo e admiração pelo mestre. As artes marciais cultuam mais o aprendizado do que a vitória no combate.

Admiramos os artistas pelo conhecimento das formas. O prazer de ouvir uma canção nasce da admiraçao pela perfeição melódica e instrumental. Admiramos uma bicicleta pelo conhecimento das formas mecânicas que ela contem. O conhecimento transmitido está na base de toda atração intelectual.

Eu ja pensava em escrever essas reflexões quando liguei a televisão na casa de uma amiga (não ligo TV em casa) e dei por acaso com um programa sobre a greve estudantil nas escolas secundarias. Um jornalista conversava com duas lideranças do movimento estudantil secundarista que teria invadido as escolas na cidade de São Paulo e interrompido as aulas. Um moço e uma moça eram entrevistados.. O que me chamava a atenção era a afirmativa dela: o governo do Estado não teria consultado os estudantes quando elaborou uma reforma no ensino. Se a moça dissesse que os professores não haviam sido consultados, faria sentido porque são eles que transmitem o conhecimento e portanto devem ter autoridade junto a burocracia. Os pais não foram ouvidos sobre mudanças na escola de seus filhos e foi um erro mas.. os estudantes de 12 a 17 anos se organizaram para decidir a politica educacional? Baseados em que conhecimento? Não..não era o caso. Era a burocracia politica e partidaria que mobilizava os estudantes para atacar a burocracia de outro partido; com fins de barganha, poder. Uma luta entre velhos, entre gente que blefa e se esconde atrás de meias verdades. A  líder estudantil dizia na TV que os alunos desautorizaram o Estado mas não contou quem decidia o que dirigidos por quem. Meias verdades. Em principio, crianças não podem ensinar aos adultos como educá-los porque não sabem. A perda de hierarquia gera um horror como no filme IF com o Malcolm Mc Dowell… mas não era nem o caso.  Políticos velhos se esconderam atrás de crianças para atacar outros politicos velhos. Esconderam a ascendência sobre as lideranças estudantis para jogar uma cartada, usando crianças como  cartas de um blefe.  A hierarquia das meias verdades justo no lugar aonde se ensina a verdade .. a escola.

dezembro 13, 2015

Pequeno diálogo sobre responsabilidade individual.

Isabel_ A maioria dos grande empresários é tão vítima do clientelismo quanto o pessoal do Bolsa Família e das cotas, embora com menos desculpas para isso.

Flavio_  O clientelismo nasce da falta de principios dos individuos. Os principios não são apenas Não Roubar.. mas ter responsabilidade sobre o espaço de trabalho, de aprendizado, de formação intelectual e cultural.

Quando ninguem é responsavel por nada, o Estado, a sociedade passam a ser responsáveis por tudo… e se todos dependem do Estado, e da sociedade, somos chantageados em troca de apoio politico: Vote certo! Ou vai perder as oportunidades que criaremos para voce.

Os empresários poderiam sustentar a filosofia politica, de todos os matizes. Para que haja escolha de pensamento. Sustentar o teatro, os livros, o cinema de todos os gostos.. e assim não pagaríamos impostos para manter cultura estatal. A cultura é dever empresarial, individual até e não do Estado.

Isabel_ É obrigação do ser humano e quanto mais poder um ser humano tem, mais obrigações.

Flavio_ O Estado gigante e esse Deus chamado Sociedade.. geram a mentalidade preguiçosa e irresponsável.

Se cada ser humano assumir mais responsabilidade, poderemos então nos livrar dessa entidade vazia, opressiva e sem significado concreto algum: a sociedade.

isabel_ Tenho que entender melhor essa ideia de sociedade…
flavio_ A sociedade é uma fabricação ideológica.. uma idéia forçada, criada para desmoralizar o mito, o herói, a divindade; essas figuras fundamentais  passam a ser apenas ilustraçoes, carros alegóricos das necessidades sociais. A necessidade social é um falso mito, uma falsa divindade, opressiva e destruidora da grandeza humana.  Se voce notar, toda grande arte é anti social. E a sociedade sempre atenta para catalogar esse livro, pintura ou filme  em seus panteões, alguns  sem verba de manutenção no momento ou então recebendo a vista de um ministro.
isabel_  Ah, a sociedade como entidade e não como descrição da realidade?
Flavio_ Qual a diferença?

dezembro 2, 2015

Império

 

O Imperador cresceu só. Sua mãe morreu quando ele tinha um ano, seu pai foi para o exílio quando o Imperador tinha apenas sete. O menino estudava. Seus tutores criaram um código de valores e virtudes, um conjunto irretocável de princípios para sua formação. Ele cresceu entre páginas de livros e palavras de professores, sem irmãos ou irmãs, em um país distante do continente onde sua família, os Habsburgos,  Orleans e Braganças, reinava há séculos. O Imperador nasceu e cresceu em um Novo Mundo de matas e rios, de índios e ex colônias que se tornavam Repúblicas. Quantas crianças crescem sendo preparadas para governar os homens? Quantas foram bem sucedidas? Quantas herdaram a tradição de um continente para governar em outro? Quantas foram tão sós? A solidão do Imperador sempre foi imensa. Educado para enxergar os problemas do país, do alto de toda a cultura acumulada no Ocidente e governá-lo com sabedoria e equilíbrio… assumiu o trono aos 14 anos de idade. O império durou o suficiente para o menino envelhecer e nele florescerem tantos homens brilhantes e inteligentes quanto fossem necessários e a liberdade permitisse. E assim deveriam caminhar as nações.

Seu país foi colonizado de maneira diferente dos vizinhos. Foi miscigenado. A única monarquia em um continente de Republicas e o único país mantendo escravos.  Agora estamos diante da velhice do Imperador. Sua filha, a princesa, governa enquanto ele fazia viagens ao encontro da sua verdadeira família: o conhecimento, a matéria impressa nos livros, a arte, a filosofia. São as regências da Princesa. Ela governa, humanista e tolerante as divergências.. como governa o pai. Católica. Isabel. Da Igreja, recebeu a compaixão. Para seu desgosto, ainda se mantinham escravos no Imperio.. A escravidão era absurda. A escravidão é uma ignomínia: não se pode vender gente! O ser humano não é propriedade e a Princesa protege os escravos que fogem das fazendas em um quilombo onde cultiva rosas brancas que se tornam simbolo da Abolição. A abolição que se falava em todo lado; nas ruas, na corte, na camara de deputados e no senado do Imperio.. A família imperial queria a abolição mas a monarquia era constitucional com seu gabinete, câmara, senado onde os senhores de escravos defendiam sua propriedade. Era o fim do século e aquela era a ultima nação que ainda mantinha escravos. Esse atraso nunca vai se pagar. Os tempos eram já de capitalismo a pleno vapor. Na capital do Imperio havia classe media, industrias e trabalhadores assalariados . Até escravos faziam bicos assalariados. Bicos que podiam comprar alforria… os escravos de ganho. A libertação acontecia desde o começo do século por bondade dos senhores ou habilidades dos escravos.

Havia algo peculiar e contraditório no Imperio: mantinha escravidão e pouco discriminava os homens de cor. Os Estados Unidos acabaram com a escravidão mais cedo mas logo construíram um sistema declarado de discriminação racial. Enquanto a corte do Imperio permitiu o acesso e prestigiou homens de cor, filhos e netos de escravos quando manifestavam talento e inteligência! Os melhores escritores, engenheiros, músicos, banqueiros,conselheiros e políticos podiam ser negros e bem sucedidos. Podiam ficar ricos, influentes e respeitados .. em plena escravidão. Brancos e negros casaram entre sí e reconheceram suas crianças. Chiquinha Gonzaga era filha de um General do exército Imperial que casou com sua mãe, ex escrava. O mundo civilizado que havia escrito os livros de formação do Imperador, que colonizara aquele país já havia virado a página da escravidão… mas desenvolvia o preconceito, o racismo enquanto o Imperio ignorava a diferença de cor. A literatura da moda no Brasil, romanceava loiros e mulatos. Se dançava a umbigada nos salões.

O Imperador era a favor do futuro e do conhecimento. Trouxe o telefone e patrocinava a fotografia. Patrocinava Luis Charcot na Europa, o cientista que abriu caminho para Freud. Conversava com Richard Wagner e Friedrich Nietzsche. Tolerante, suportava as críticas mais ferozes dentro de um ambiente de liberdade de expressão. Separava o exercício do poder do enriquecimento pessoal. O Imperador foi a elite avançada, ética, de que o país hoje sente falta. Era um pais diferente em construção. Os irmãos Rebouças equacionavam a problemática distribuição problemática de água no Rio de Janeiro e dirigiam a construção da ferrovia Curitiba- Paranaguá. André Rebouças propõe a reforma agrária e uma nova economia brasileira… Era um empresário de sucesso. Negro. Aconselhava o Imperador como o seu pai já aconselhara antes. O pai de André, filho de uma escrava alforriada e alfaiate português, foi advogado autodidata, deputado e conselheiro de D. Pedro II. Alguns dos gênios de maior prestigio na corte eram negros e mulatos vindos de famílias humildes e entravam no Palácio por mérito e criatividade. Vinham de famílias com ex escravos onde a virtude da colonização portuguesa aparece de maneira comovente: crianças reconhecidas de casamentos assumidos perante a lei e a Igreja, sem proibição, violência e principalmente sem vergonha alguma da cor na pele de seus filhos. A virtude se estende a uma sociedade que ofereceu meios para o talento de homens de cor desabrochar em carreiras brilhantes. Machado de Assis se torna um dos maiores escritores do mundo e cria a Academia Brasileira de Letras. Chiquinha Gonzaga é maestrina da música popular brasileira e faz imenso sucesso. Luis Gama, que foi escravo, se alfabetiza aos 17 anos e vai escrever nos jornais. Cruz e Souza, o poeta simbolista, é filho de escravos alforriados. “João da Cruz desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Souza – de quem adotou o nome de família, Sousa.. A esposa do Marechal, Dona Clarinda, não tinha filhos, e passou a proteger e cuidar da educação de João que aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.”.. está na wikipedia. E ainda tem Nilo Peçanha..

Abolicionistas se dividiam entre o monarquismo e o Republicanismo. A escravidão e a Monarquia eram atacadas ao mesmo tempo. Alguns republicanos flertavam com ideias que impedissem o convívio de negros no melhor espaço social do país.. Joaquim Nabuco, Rebouças, José do Patrocinio eram abolicionistas e monarquistas. A Princesa assina o fim da escravidão e se nega a sangrar os cofres do país para indenizar os proprietários de escravos que passam a apoiar um golpe republicano.   A Princesa se torna a Redentora de um povo que tem tambem sua Padroeira, Nossa Senhora de Aparecida. O Brasil é patriarcal mas sua alma é feminina.. e católica. Começa um culto a Princesa Isabel. O povo negro, os presidiários, as prostitutas, os pobres e humildes amam a Princesa. Há um um sentimento alinhado à família real e os republicanos radicalizam os ataques à Monarquia nos comícios. Nesse momento, o abolicionista José do Patrocínio organiza a Guarda Negra da Princesa.

A formação da Guarda Negra da Princesa Isabel é um episódio ainda misterioso. Falta História… e sobra um símbolo fortíssimo de aliança entre a elite intelectual do país, a corte e seu povo mais pobre, destituído. Esse símbolo é poético: uma princesa devota à caridade, à bondade, protegida por capoeiristas negros libertos da escravidão, prontos a dar a vida por sua redentora e pela monarquia. Capoeiristas das maltas Nagoás de ex-escravos ex combatentes alforriados pela guerra do Paraguai que dominavam o Rio de Janeiro das áreas rurais até o Campo de Santana. Um símbolo de transcendência e transformação: as maltas de marginais donas de territórios na cidade em conluio com políticos pouco afeitos a virtudes, transformadas em elite de combatentes com um ideal. Elite porque tinham ideal: juram defender a Princesa em uma cerimonia secreta quando entram na Guarda Negra.

Quando cai o Imperio, André Rebouças se exila junto com a Princesa e o Imperador. Da wikipedia: “fora a família real, seguiram juntos no vapor – por amizade, e não por imposição republicana – o barão e a baronesa de Loreto, o conde Mora Maia, o barão e a baronesa de Muritiba e o engenheiro abolicionista André Rebouças, com quem o imperador se deleitava em conversar.”.. O exílio de Rebouças é sintomático do fim de uma Era, o fim de um projeto diferente de sociedade, de elite. Esse país onde o povo amava a família real que veio de Portugal é interrompido apesar da dedicação da Guarda Negra em proteger a Princesa. É inegável que hoje o espaço de prestigio social se encontra muito distante do homem de origem simples, de cor, do mulato. Em algum momento, houve um corte. A distinção que antes era de homem livre x escravo se multiplicou em várias distinções que servem como barreira à circulação da inteligência , da justiça, da oportunidade. Distinção de cor, de diploma e formação. Erigiram barreiras entre o Palácio e a rua. Algumas sutis e outras de cimento, grade e arame farpado. A hierarquia social se transferiu para a institucionalização do saber. A universidade, a principio uma ferramenta de liberdade, passa a ser barreira para a inteligência informal não apenas do negro mas de toda forma excêntrica de saber. Luis Gama foi alforriado, se alfabetizou aos 17 anos, estudou o que precisava saber e foi escrever em jornais aquilo que precisava ser dito. Machado de Assis foi estudando e aprendendo. A informalidade do saber foi fundamental para facilitar a ascensão de gênios que eram negros e sem posses. No Império, os originais, o diferente, aquele que se constrói sozinho encontrava a porteira aberta para entrar no palácio, encantar o povo e dialogar com o poder. Houve depois um eclipse sobre o brilho intelectual do homem negro no Brasil. Quando se torna impossivel o surgimento de engenheiros/ líderes como André Rebouças? O Império abriu espaço para André enriquecer o Brasil. Por que hoje somos mais pobres em oportunidade, liberdade, igualdade? Curioso como a Universidade propõe uma divida histórica das elites com o negro sem mencionar em qual período da Historia os negros foram afastados do saber, como se nunca tivesse havido uma voz negra de prestigio nesse país.

É importante revelar virtudes que foram recalcadas e silenciadas. Vamos deixar de lado essa noção precária em que a nossa pasmaceira, injustiça e atraso são consequência da colonização portuguesa, de um D. João bobão e de uma Princesa Carlota Joaquina meio doida. Isso é conversa fiada. Se herdamos algo de Portugal, é a ambição única de miscigenação, de um corpo misturado de branco e negro. Cultura misturada. Poderíamos herdar também a visão de uma Princesa tolerante e bondosa protegida por capoeiristas, a visão de uma corte onde os talentosos entravam pela porta da frente para produzir obras geniais, sem impedimento burocrático, patrocinados por uma elite que se orgulha do gênio sem se importar com a cor de sua pele.