Archive for novembro, 2015

novembro 19, 2015

Três desejos de renovação cultural

 

Um filme com diálogos afiados e refinados, cortantes e eruditos. Um filme com personagens que gostam de falar e inventar frases espirituosas. Mocinhos e bandidos que leram bons livros e dalí tiraram conclusões engraçadas. Diálogos que sejam copiados depois para as conversas na rua, que renovem a conversa cotidiana que anda, aqui entre nós.. meio gasta. A ideia não é copiar a realidade mas inspirá-la! Um filme que faça da conversa espirituosa, a moda do momento.

Uma companhia de teatro que faça um recorte na Historia da Ciencia para uma encenação. Não estou falando de educar as pessoas. Quem precisa se educar vai a escola.. Estou falando de criar intimidade visceral com as descobertas e os descobridores cientificos.

Uma revista eletrônica com fotografia de alto nível, design de alto nível e texto de alto nível. Aí sim.. sobre a realidade cotidiana. Por que não existe isso? Junte um diretor de arte genial e um editor de textos genial. Eles existem e estão disponíveis. Se essa revista não existe é pelo mesmo motivo da falta do filme de diálogos afiados e a peça sobre idéias cientificas.. preguiça. Vamos trabalhar. E olha: pode ser com dinheiro das leis de incentivo ou não . Tanto faz.. não existe dinheiro ruim para fazer arte.

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novembro 17, 2015

elogio ao refugiado

 

Repare nos refugiados.. Alguns deles estão dormindo sob uma marquise em Paris. Iluminaram a marquise para filmá-los com uma luz dura e a câmera filma de cima para baixo o homem se cobrindo para dormir entre pedaços de papelão. Nunxa tinha assistido essa violência sobre o sono. Quando me cubro para dormir, os estranhos estão afastados e estou protegido. Posso amolecer e me deixar invadir pelo inconsciente. Os refugiados são endurecidos. Não sinto pena mas profunda admiraçao por esse endurecimento. São voluntários de sí mesmos como são voluntários os que lutaram na Resistencia Francesa. Na Hungria, fizeram questão de dizer: não somosmendigos! Verdade. Não são frágeis e não são desajustados. São o exemplo mais claro de escolha e determinação em uma época aonde tudo nos é imposto: o celular, o facebook, o ateísmo, a consciência social, o seguro social, o centro de saúde, a escola, as eleições, o direito de expressão, a indignação, a subjetividade, o sexo, os filmes, a discussão, a religião chegam a sua casa, sua porta, seu computador em um e mail não solicitado, um telefonema do fornecedor dos serviços, uma discussao na rede social na pagina de um amigo que te adicionou. Voce clica e aceita. Basta ter a sua senha.

O refugiado não aceita mais. Nem o seu pais, a cidade, a sua casa, seu desemprego e o seu exercito nacional de fanáticos lutando por idéias tortas e imbecis. O refugiado parte em uma odisseia miserável sem Homero algum para narrá-lo. Ele busca a alternativa, sobrepujando perigos de uma grandeza simbólica como nunca mais o homem havia encontrado .. Embarcam em botes carregando o que tem para cruzar o mediterrâneo, clandestinos. Imaginem a força de uma lembrança como essa na mente de uma criança carregada pelso pais. É uma lembrança capaz de fazer ressurgir a poesia, a arte, as grandes narrativas.

O refugiado não aceita o destino. Não aceita sobreviver. Ele escolhe encontrar outra identidade que não seja o sobrevivente. Escolhe a transformaçao que lhe impõe um aniquilamento. Dormir sob marquises e ser o lixo da cidade luxo, sua comida em copos e pratos de plásticos enquanto uma câmera filma seus cobertores de papelão. Ele aceita o aniquilamento. Estóico. Escolhe o seu destino. Ele é forte. Tanto quanto os europeus, os latinos, os americanos do norte, asiáticos, russos, japoneses e australianos. Ele atravessou mar e montanha. Está afiado na caminhada e eu afirmo: são eles os exploradores espaciais, os astronautas. O refugiado é o homem do futuro.

Os refugiados parecem não possuir nada mas carregam algo que que eu e voce, nesse momento, não conseguimos encontrar em nenhum de nossos muitos armários em quartos aonde dormimos protegidos de qualquer estranho: esperança. Eu observo o rosto do rapaz afegão na câmera. Que rosto bonito, jovem, de olhar inteligente. O cabelo bem penteado. Como são bonitos os semitas. Articulado, prova ao repórter por a mais b que alí naquela marquise, ele e os companheiros jamais poderiam planejar um atentado terrorista na cidade. Como é inteligente.

 

 

novembro 15, 2015

A Imagem e o Tempo

A imagem é fonte de encantamento e revelação. Ela aparece pela primeira vez diante de Narciso que então fica hipnotizado. O fotografo tambem fica encantado e hipnotizado por cada imagem que consegue para si mas deve perceber que está diante de uma escrita, de um código da civilização. O seu trabalho é revelar a abstração que sustenta a sensação de realidade produzida na imagem.

A fotografia no seu principio vagou entre o natural e o sobrenatural. Entre o registro da mecânica dos movimentos na natureza e o registro das auras e espíritos em outra dimensão. As funções reveladoras criaram um caráter surreal para o fotografo. Ele sempre esteve ligado ao imprevisível.

O fotografo utiliza elementos estéticos para construir imagens, esses elementos devem estar diante do fotografo, naquilo que ele fotografa. A presença é um elemento importante da fotografia. A ausência também é um elemento importante. Presença e ausência da natureza física. A estética da fotografia está na frente do visor, fora da câmera, alheia ao fotografo, não aparecendo através das mãos, como no desenho. O alheio, o alheamento é uma angustia na fotografia, sendo enfrentada no auto retrato e tratada explicitamente por Mapplethorpe e Nan Goldin.

A imprevisibilidade também é consequência do alheamento, desse fazer fotográfico que não é controlado pelas mãos como o desenho e a escrita, mas por aquele e aquilo que estão diante da câmera. A imagem é imprevisível. Essa qualidade, fundamental ao foto jornalismo, eu procuro estender a todo resultado que envolve a fotografia. Aí aparece uma contradição, um paradoxo no trabalho do fotografo; sua produção faz parte de um código de signos como são os retratos, paisagens, still life… aonde as escritas pessoais contem elementos de uma escrita coletiva mas a cada vez que o fotografo produz um signo, ele trabalha com o tempo e sua imprevisibilidade. O tempo é o assunto principal da modernidade. A finitude, a fragmentação, a Historia estão expressas na fotografia, incessantemente. O tempo é o senhor do trabalho de todos os fotógrafos e ri de suas pretensões autorais. Enquanto no cinema há um controle do tempo na montagem e mesmo na captação, na movimentação dos atores, na fotografia still, todo resultado pertence em ultima instancia, ao Tempo, a época, expõe uma circunstancia. Essa desapropriação, esse alheamento, repito, é a fonte da importância do fotógrafo na cultura aonde a noção do tempo é a dimensão, potencia mais importante para a ideia de realidade. O único dado incontrolável no jogo.

O fotografo é o homem em contato com o tempo, nos fragmentos de segundo do obturador.

A fotografia pode se tornar uma estética porem a sua força está na constituição de uma escrita aonde os signos não são formadores de sentido e ética como as palavras mas pura consciência do tempo e sua imprevisibilidade. Curiosamente, é uma consciência que produz encantamento na psique a cada vez que uma fotografia é produzida mesmo quando diante do conjunto de suas imagens, o fotografo sente a angustia de pertencer a tudo e não possuir nada.

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La imagen es fuente de encantamiento y revelación. Ella aparece por primera vez delante de Narciso y entonces se queda hipnotizado. El fotógrafo queda encantado e hipnotizado por cada imagen que logra para sí, pero él debe percibir que está delante de una escritura, de un código de civilización. Su trabajo es revelar la abstracción que sustenta la sensación de realidad producida en la imagen.

La fotografía en su comienzo, vagó entre lo natural y lo sobrenatural. Entre el registro de la mecánica de los movimientos en la naturaleza y el registro de las áureas y espíritus en otra dimensión. Las funciones reveladoras crearon un carácter surreal para el fotógrafo. Él siempre estuvo ligado a lo imprevisible.

El fotógrafo utiliza elementos estéticos para construir imágenes, esos elementos deben estar delante del fotógrafo, en aquello que él fotografía. La presencia es un elemento importante de la fotografía. La ausencia también lo es. Presencia y ausencia de la naturaleza física. La estética de la fotografía está al frente del visor, fuera de la cámara, ajena al fotógrafo , no aparece a través de las manos, como en el dibujo. Lo ajeno, la lejanía, es una angustia en la fotografía, que se enfrenta en el autorretrato y es tratada explícitamente por Mapplethorpe e Nan Goldin.

La imprevisibilidad también es consecuencia de esa lejanía, de ese quehacer fotográfico que no es controlado por las manos como el dibujo y la escritura, sino por aquello que esta al frente de la cámara. La imagen es imprevisible. Esa cualidad, fundamental al fotoperiodismo, yo trato de extenderla a cualquier resultado que envuelva a la fotografía. Ahí aparece una contradicción, un paradojo en el trabajo del fotógrafo; su producción forma parte de un código de signos como son los retratos, paisajes, stilll life; donde la escritura personal contiene elementos de escrituras colectivas, pero cada vez que un fotógrafo produce un signo, él trabaja con el tiempo y su imprevisibilidad. El tiempo es el asunto principal de la modernidad. La finitud, la fragmentación, la Historia, están expresadas en la fotografía, incesantemente. El tiempo es amo del trabajo de todos los fotógrafos y se ríe de sus pretensiones autorales. Mientras en el cine hay un control del tiempo en el montaje, en el movimiento de los actores y en la captura, en la fotografía still, cualquier resultado pertenece en última instancia al Tiempo, a la época, expone una circunstancia. Esa desapropiación, esa lejanía, repito, es la fuente de importancia del fotógrafo en una cultura donde la noción del tiempo es la dimensión, potencia mas importante para la idea de realidad. El único dado incontrolable en el juego.

El fotógrafo es el hombre en contacto con el tiempo, en los fragmentos de segundo del obturador.

La fotografía puede tornarse una estética, no obstante, su fuerza está en la constitución de una escritura, donde los signos no son formados de sentido y ética, como lo son las palabras, sino pura consciencia del tiempo y su imprevisibilidad. Curiosamente, es una consciencia que provoca encantamiento en la psique cada vez que una fotografía es producida, aun cuando delante del conjunto de sus imágenes, el fotógrafo siente la angustia de pertenecer a todo y no poseer nada.

novembro 15, 2015

Fotografia e Pintura

Em determinado período do seu trabalho, as pinturas do artista alemão Gerhard Richter parecem fotografias. Ele leva para a tela a profundidade de foco, a gradação tonal em preto e branco e até o “tremido” da fotografia quando a velocidade lenta e a câmera na mão produzem uma imprecisão.

Warhol e muitos artistas do pensamento pop inclusive no Brasil se interessaram pela fotografia como uma “nova paisagem”. Hoje, ainda mais, imagem se tornou prevalente sobre a paisagem física: a imagem determina nossa idéia de paisagem, cidade e individuo. A relação do olhar com o mundo é mediada por imagens. Richter expõe a ambiguidade entre precisão e imprecisão da fotografia na captaçao do visível. A pintura, “conclusão” do olhar, pensa o visivel e faz a síntese do que se olha e precisa ser enxergado.

Pintura começa em pensamento que através do gesto acumula massa pictórica. A fotografia é uma tradução automática do visível, feita na camera escura, para o bidimensional. É automática. Aquilo que está diante do olhar se transforma em imagem quando o aparelho fotográfico é acionado. Esse aparelho é basicamente a camera escura usada no atelier renascentista para produzir perspectiva na pintura. Quando o filme sensível é inventado, a imagem é liberta do atelier para se tornar autônoma; um duplo do que se vê, capaz de sobreviver a visão, ao momento em que foi visto. A fotografia nasce ligada ao acontecimento, como um irmão siamês de cada momento. Com a fotografia, o momento passa a ter ângulos de onde é visto. Multiplos ângulos. O momento se torna um polvo de muitos braços generosos. Em cada ângulo, um fotografo. Em cada fotografia, uma visita a esse momento, uma recordação, uma descrição. A observação fotográfica se torna a febre do século 20 e substitui todas as tentativas de formulação e descrição da realidade: a fotografia torna tudo inteligível, enquadrando e reduzindo pessoas, multidões, fenômenos, conflitos etc.. dentro da imagem.

Está na hora de lembrar a historia da fotografia. No fim do século 19, Paul Strand escreve um manifesto modernista na revista Camera, editada em Nova Iorque por Stieglitz. Strand propõe aos fotógrafos que procurem uma estética própria da fotografia. Ele procura a nitidez, a geometria e principalmente o detalhe em macro. Algo especifico da fotografia que esteja além do que é visto e que seja encontrado através da câmera, antes de ser imaginado. Segundo o modernista Strand, a imagem deve ser produção da câmera fotografica, sua propriedade. Não mais a tradução da pintura romântica refazendo mitos e cenas literárias no estúdio ou capturando auras e fantasmagorias em reuniões espíritas. O manifesto de Strand leva o fotografo/ artista para as perspectivas produzidas pela indústria. Leva o fotografo para descobrir o olhar da máquina. A imagem paira sobre o encontro entre o inconsciente e a industrialização e cabe ao fotografo revelá-la. A interseçao inteligível, reflexiva, com as maquinas.

Havia uma nova paisagem a ser formulada. A fotografia acelerou o modernismo. Vieram o formalismo de Weston, a documentação de Walker Evans. A aceleração da arte com Man Ray e Duchamp. Aparece o futurismo, todo sobre a aceleração. Lartigue fotografa a aceleração de um carro. Man Ray produz imagens anti riomanticas de nú/ objeto/ máquina. Duchamp faz retratos disfarçado de bandido e de mulher. Usa as maquinas de retrato dos parques de diversão para fazer auto retratos aonde se torna mais indescritível, menos conhecido, mais enigmático. A fotografia torna a identidade e a essência de cada um em clichê produzido em série. Walker Evans concretiza a melancolia e o desespero literário do século 20 nas imagens que faz dos EUA na depressão econômica. A fotografia critica e social da depressão americana, circulando nas revistas, dissipa a idéia burguesa de descrever o artista como alguém desligado da realidade. O fotografo mostra as coisas como elas são: duras, nítidas, sólidas, impessoais, aceleradas, em movimento.

Apesar da inteligência na proposta modernista de Strand, o fotografo não controla a maquina: é a fotografia que vai dominar a natureza, o ser. Ela vai se tornar o mundo. O fotografo se desloca da posiçao de observador do momento para se tornar o criador da paisagem, do momento, do mundo. A fotografia se torna anterior a paisagem na civilização moderna. A fotografia se tornou rápida e fácil, se reproduzindo com voracidade, colada em toda existência até o ponto que começa a substitui-la. E nesse momento de triunfo da imagem, a fotografia aparece como personagem na pintura pop. Os artistas, e só eles, perceberam que a imagem fotográfica havia se libertado do olhar para se apossar do lugar dos vivos. Warhol pinta a Marilyn.. mas ele pinta a imagem da Marilyn, sobre a imagem impressa da Marilyn. Sua tela, sua paisagem, sua coisa, sua matéria.

A estratégia para deslocar a fotografia do lugar de mediaçao entre pensamento e acontecimento começa alí.   A estratégia projeta o fotografo para um outro angulo e lugar. Um lugar subalterno a pintura. A imagem não será mais a irmã siamesa do que existe ou a expressao definitiva do que acontece entre espaço e tempo. A pintura volta a mediar a relação entre olhar, paisagem e pensamento. E a fotografia sai dos departamentos e coleções específicas para ocupar as paredes das instituiçoes de arte em pé de igualdade com todas as obras.

A fotografia deve ser comandada pelos artistas. O segundo passo dos artistas na fotografia foi aplicar a ideia minimalista. A exposição New Topographics, nos anos 70, cria um novo gênero de fotógrafo que abandona a idéia de “momento decisivo”, de observador da aceleração cotidiana, para mditar sobre a paisagem e suas possíveis proximidades com dinâmicas da arte contemporânea. O casal alemão Becher, professores da Academia de Arte de Dusseldorff, aparece nos Estados Unidos pela primeira vez com suas séries disciplinadas e obsessivas de fotografias que catalogam prédios industrias segundo sua especificação produtiva. Uma tipologia de prédios industriais. Lewis Baltz fotografa periferias urbanas em regiões desérticas aonde a paisagem evidencia um mundo feito de forma sem sentido. É uma paisagem inóspita, perigosa ande a natureza humana nõa é mais grandiosa e sim um clichê diminuído. Robert Adams, Joe Deal, Frank Gohlke, Nicholas Nixon, John Schott, Henry Wessell e Stephen Shore completam a lista de fotógrafos dessa exposição que criava um novo gênero, uma cena fotográfica distante do mundo dacomunicação e próximo da arte minimalista.. na fronteira histórica entre arte moderna e contemporânea.. Há um reencontro na paisagem, na Topografia, entre a fotografia e a pesquisa das artes plasticas.

A pesquisada paisagem continua entre os alunos dos Becher na academia de Dusseldoff; Andreas Gurski, os dois Thomas, Ruff e Struth e Candida Hoeffer criam nova torção sobre a imagem e a paisagem; manipulam a paisagem para aproximá-la da idealização. Separam a imagem e do acontecido, do mundo em movimento. A imagem deve ser apenas imagem e um espelho para ideias. Gurski distancia a câmera e enquadra a multidão, manipulando a imagem e criando harmonias utópicas. Sempre com o olhar distante, enquadra a serialidade do “tudo a 1 dolar” nos supermercados. A realidade parece cada vez mais um projeto idealista e absurdo na fotografia próxima da arte.

O terceiro passo dos artistas na fotografia será a encenação. Starlets, garotas que fogem de casa, Gangs de rua. …toda a paisagem contemporânea que era capturada espontaneamente será encenada pelo fotógrafo. A frase de Barthes “ a fotografia é extensão do teatro.. e não da pintura” do livro Camera Clara, vai ressoar. A ausência da tinta, da massa pictórica, do gesto do pintor na tela, vai ficar clara. A relaçao da fotografia com o pictórico é de conflito e impossibilidade. Uma transgressão da natureza de cada meio esta sempre implícita nas aproximações. A transgressão é a pressão para produzir reflexão. Separando imagem e existência ao aplicar doses de artificialidade na cena. A fotografia volta ao atelier do século 19 quando imagens eram compostas e encenadas. Cindy Sherman, Mapplethorpe, Mohammed Borouissa, Rineke Djikstra e Jeff Wall. Nan Goldin mostra a vida sentimental com a sensibilidade camp aonde a dor de viver é melodramática. Tudo exagerado. A pintura disfarçada de fotografia em Richter e a fotografia como pintura refletida na imagem, em Jeff Wall. O melodrama de Nan Goldin. As cenas de Cindy Sherman e Borouissa. Os Gainsborough na praia de Dikstra. Há um aspecto de máscara. A farsa é constante no repertório da arte desde sua aparição no Ocidente. É uma idéia moderna e a arte aparece se dirigindo ao moderno. A fotografia/ extensão do pictórico é assinalada como um sintoma de pós modernismo. Seria o caso de compreendermos que estamos diante de um desdobramento do moderno. … A fotografia nasce dentro da câmera escura, um instrumento de pintores. Se desgarra para inventar a sociedade deimagem.. Os pintores vão atrás e a trazem de volta para a tela, para o campo da arte, territorio da liberdade individual, da reflexão, da igualdade entre as diferenças, do espirito moderno.

novembro 15, 2015

As Águias da Morte de Metal.

Eu assistia a entrevista de um rapaz que estava presente no Bataclan.. ele mostrava a camiseta com manchas de sangue.. O rapaz dizia que jogaria fora a camiseta. Não seria um troféu cool de um show de rock onde algo “bárbaro” acontecera. Ele estava confuso, um pouco em choque.. “eu ví o que uma bala pode fazer em um corpo”. Ele conta como foi salvo por um homem de camisa vermelha que o arrastou para fora do local do massacre. A câmera da entrevista enquadra o braço do rapaz aonde ele mandou tatuar duas mãos atadas por correntes, amaneira dos desenhos dos anos 30 e a frase: Partners in Crime.

O rapaz não pode reagir a violência no Bataclan.. Ele e uma plateia aonde centenas de tatuagens flertavam com o crime e camisetas com caveiras homenageavam a morte, foram subjugados, perdendo a harmonia que cultivaram esmeradamente com a destruição. A violência é um traço da vanguarda surrealista, dadaísta, punk. Parte da fina flor da cultura ocidental celebrava a vida da maneira mais avançada possível no Bataclan e incluía, esteticamente, a morte e o crime nas imagens. Um show de rock essa noite. Um filme de gangster amanhã a tarde. A resposta da cultura as platitudes esperançosas do século 20, aos apelos ecológicos, as consciências racionalizadas, as espiritualidades duvidosas foi a morte, controlada pela estética. “Parceiros no crime”.. O dono da tatuagem não é criminoso: o crime alí é a resposta sensual a uma moral ilusória. A resposta lúcida a moral alienada da vida. A plateia no Bataclan era lúcida. A consciência procura a lucidez mesmo quando escolhe idéias sem nenhuma experiência com a pratica dessas idéias. O inocente se tatua com o crime. Os vivos brandem a caveira. Ora.. na prática os criminosos se pretendem inocentes e os mortos querem voltar ao mundo dos vivos.

O rapaz diz que vai se livrar da camiseta.. o sangue é de um desconhecido. Ele faz questão de dizer que assistiu o que as balas fazem a um corpo. Ele quer mandar uma mensagem: agora sei o que são balas, tiros e mortes. Viu uma expressão mecânica no rosto de um atirador. Agora sabe como alguém morre a tiros. Ele foi ao Bataclan para assistir Eagles of Death Metal, banda que faz paródia da violência sensual no Rock. O rapaz vai ter um problema agora: sobreviver em uma cultura que não vai lhe parecer tão lúcida.  O que ele vai fazer sábado a tarde, no lugar de assistir um filme de gangsters?  Aonde a plateia que escapou viva do Bataclan vai encontrar lucidez? No Bataclan, sexta a noite, começou mais uma transformaçao radical na nossa sensibilidade.